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tera, 22 de setembro de 2020

Altair Malacarne: A Bunda Amarga (um relato sobre a antropofagia entre indígenas)

O professor Altair Malacarne expõe em seu texto registros sobre a antropofagia entre tribos de índios existentes no Espírito Santo, na região do Vale do Rio Doce.

Frase do relatório:

– “A antropofagia é uma questão também sobre que não tenho ainda uma opinião assentada”.
Relatório de 1912, escrito pelo Inspetor Antônio Estigarribia, registra: afirmações ao Sr. Francisco Alípio, encarregado do Posto, diziam que havia índios que gostariam “especialmente de perna de creança” e de algumas cousas mais. 

Trecho do relatório apresentado à Diretoria do Serviço de Proteção aos Índios:

– “Quanto ao moral, a diferença notada é a que diz respeito ao pudor; mas essa diferença talvez não exista na realidade. Pode ser que todos procedam do mesmo modo, dependendo apenas das situações.
A antropofagia é uma questão também sobre que não tenho ainda uma opinião assentada. Si eu o quisesse fazer pelas informações de umas tribos relativamente às outras, então só teria que afirmar ser a antropofagia, entre eles, uma horrível realidade.

Mas tais informações são suspeitas, porque as tribos não se estimam. Os índios do sul do Rio Doce (mansos) afirmam que os Munhangirens comem gente: estes afirmam que os Gutcracs a comem e eles não; os Gutcracs, por sua vez, dizem que os Crenacs comem os «caraís» (estrangeiros), que encontram no meio da floresta, não comendo, porém, o inimigo Índio, que matam e deixam ficar para os urubus comerem. Tenho também, alem de outras, algumas afirmações de Teichuc ao Sr. Francisco Alípio, encarregado do Posto, a esse respeito. Segundo elas, esse índio gostaria especialmente de perna de creança e de algumas cousas mais. Mas o Índio manso José dos Reis, gutcrac, afirma que isso é troça de Tetchuc, porquanto nunca ouviu talar em semelhante cousa.”

Recolhi esse Trecho de um relatório apresentado pelo Inspetor Antônio Estigarribia, à Diretoria do Serviço de Proteção aos Índios, no ano de 1912, relativamente aos índios do Rio Doce, n Revista do IHGES, nº 07, 1934, pág. 12(http://www.ape.es.gov.br/index2.htm).

O texto transcrito sugere que havia canibalismo no norte do rio Doce capixaba. As acusações mútuas entre tribos nos levam a crer que era uma prática reprimida ou velada, feita possivelmente às escondidas para evitar a repressão do homem branco.

– O professor Altair Malacarne, autor deste texto (ao centro, na foto), foi homenageado no dia 15 de outubro passado, Dia do Professor, pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo.

O bugre gostava muito de cachaça e carne. Depois de uns goles, certamente a consciência não conseguia mais despertar neles algum sentimento de fraternidade.
Há um trecho interessante no relatório:

– ” …ESSE ÍNDIO GOSTARIA ESPECIALMENTE DE PERNA DE CREANÇA E DE ALGUMAS COUSAS MAIS”.

Ora, é pouco provável que TETCHUC inventasse uma troça tão irresponsável.

Diálogo entre Bertolo Malacarne e uma matriarca índia

No meu livro sobre a história da origem de São Gabriel da Palha, há um depoimento de Diógena, filha de Bertolo Malacarne, sobre o contato dele com os índios remanescentes aqui.

Disse ela que a matriarca índia pegava as mãos de Bertolo e as dizia bonitas. Ele perguntava:

– Vocês comem gente?
– Sim – respondeu a matriarca índia.
– Qual a parte mais gostosa?
– As mãos.
– E a pior de gosto?
– As nádegas (a bunda); ela amarga.

am/24.07.2013

Altair Malacarne é professor, escritor, historiador

Nós, do Portal Don Oleari Ponto Com – www.donoleari.com.br – nos sentimos orgulhosos pela publicação deste texto, por acompanharmos o minucioso trabalho de Altair Malacarne pelo resgate da memória e da história do ES.

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