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sbado, 07 de dezembro de 2019

Orlando Eller: Onde a lua faz clarão

Recente eclipse da lua por inteiro, a que tanto admirei madrugada adentro, levou-me a ter certeza de que o nosso desprezo pela natureza é muito maior que o revelam as mazelas que lhe impusemos até hoje, desde o Gênesis.

Há especialmente mais em vigor do que o cruel exercício das culturas antifloresta e antibicho em meio às tênues entrelinhas que descrevem a miudeza de nossa relação com a natureza. Trata-se de um antigo mas revigorado, crescente e igualmente perigoso desinteresse pelas coisas simples, por importantes que sejam, debaixo dos nossos pés e acima das nossas cabeças.

Neste confronto predatório em que bilhões marcham atônitos em busca de sobrevivência, grande parte deles armada de doídas tecnologias, não há mais no coração de muita gente lugar especialmente reservado para a lua ou para o córrego. Nem mesmo se as razões determinantes forem uma deferência ao desconhecido fora de alcance e do domínio da gente.

Porque o luar, a mata fechada e o regato que desliza transparente em mil meandros são absolutamente vitais em qualquer cantinho do planeta, do vale do rio Doce ao vale do rio Ganges.

Lá na beira da mata onde fui menino, vi que meu pai tinha a lua certa para cortar árvores cuja madeira empregaria na construção de casas, tulhas, cercas, porteiras e outras utilidades. Eram a minguante ou a nova. Porque madeira colhida em lua crescente ou cheia era severamente atacada por carunchos, cupins e outros bichinhos.

Hoje ninguém mais cultiva o hábito. A madeira-de-lei, mais escassa a cada dia, já recebe uma carga vigorosa de veneno e, assim, deixa de ser celulose comestível, matéria útil da biodiversidade.

Eclipses, principalmente estes de lua inteira, eram vigiados pelos homens da roça em seus almanaques. É que, acreditavam eles, toda roça de feijão fotografada pelo fenômeno amarelava logo, melava e não produzia. E, para preservar incólume o feijoal, eles distribuíam nele, aleatoriamente, sobre tocos de árvores, garrafas brancas cheias de água.

Infelizmente, ninguém lhes disse e nem lhes passou pela cabeça que, tão importante quanto a lua e seus fenômenos, também eram (e são) a terra, a floresta, o caititu, o pintassilgo, o arroio, o brejo, o sapo e todas as particularidades da biodiversidade com a sua intrínseca interdependência com a vida dos homens.

Por lindo que foi, o eclipse remeteu-me a um tempo em que, enquanto se fazia roça a machado e fogo, a molecada matava passarinhos com setas e bodoques. Eu matei centenas deles e não posso mais resgatar o estrago feito.

Pena que, como naquele tempo, ainda hoje se faz assim, fortemente, intensamente, numa corrida em que, como o pecado, não haverá mais volta, a não ser que todos se penitenciem e, em comunhão estratégica, se tomem de vontade, mudem seus hábitos de vida, simples que sejam, e se resguardem, pela preservação da natureza, da dizimação coletiva.

Em alguns países, a intensidade da luz do sol não é mais a mesma de poucos anos atrás. A estufa que esquenta é a mesma que escurece o planeta. Este eclipse que eu admirei, com certeza não revelou a mesma beleza intensa e viva, a mesma vida e a mesma cor que tinha um outro, o que eu vi há cinqüenta anos, quando ainda vivia na roça.

Agora, na plena esperança de que haverá comunhão objetiva para salvar a vida na Terra, a sua, a minha, a dos passarinhos, a das flores, a das minhocas e a dos grilos, enquanto viver ficarei aguardando o eclipse da lua cheia seguinte.

Depois dele a gente se fala de novo.

Orlando Eller é jornalista

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