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domingo, 21 de julho de 2019

Penna Filho: O Soldado Desconhecido e o Rádio

Família que faz cinema unida permanece unica: 
– Fabiana Penna e Penna Filho comandam a produtora de cinema. Na foto, filha e pai discutindo um roteiro. Um neto de 22 anos também já está atrás das câmeras.

Mas com esse civil eu tinha que ficar muito esperto porque ele era chegado em garotos.

Naquela época, quando não se usava o jargão atual do politicamente correto, ser chegado em garotos a gente chamava de veado.

Em novembro de 1956 consegui a tão ansiada baixa do serviço militar. Passei 10 meses ali no antigo 3º BC (3º Batalhão de Caçadores), em Vila Velha/ES, onde jamais consegui atirar no alvo, tanto que o sargento instrutor me perguntava para onde, afinal, eu atirava.

Minha resposta era um “por aí” – que poderia perfeitamente chegar ao Convento da Penha – naquele tom prudentemente baixo.

Com essa glória curricular, onde se somavam não conseguir remontar as peças do meu fuzil e escapar dos exercícios de ordem unida, daí ser apelidado pelos colegas de “Só Pena que voa”, saí do Exército com a convicção de que comigo não seríamos páreo contra a Bolívia, Paraguai e Guianas, caso essas potências declarassem guerra ao nosso glorioso Brasil.

Na verdade, saí achando que merecia até ser homenageado, não na condição de soldado desconhecido, porque de anonimato estou farto, mas por deixar o Exército entregue exclusivamente aos do ramo. De preferência aos do ramo não golpista.

Dessa experiência, guardo na memória algumas figuras. Prefiro lembrar os bons, embora tenha esquecido alguns nomes, exceto de três: o subtenente Sizenando, a quem acompanhava nas compras externas; o aspirante Caim, um cachoeirense que primava pelo relacionamento cordial com a soldadesca; e o comandante da minha companhia, Ulisséas, homem de bom diálogo com quem o procurava.

Ulisséas era espírita, membro da Legião Brasileira da Boa Vontade, que muito me ajudou nas escapadas do serviço. A LBV era anunciante da Rádio Vitória, onde eu iria trabalhar assim que conseguisse a baixa. Com um argumento que só uma pessoa com a simplicidade, diria até, pureza, desse oficial poderia aceitar, pedia folgas para me exercitar na rádio, onde leria com muito capricho os anúncios da instituição religiosa.

Podem cravar que eu aceito: coisa de malandro.

Gostava muito do primeiro-sargento, o sargenteante, responsável pelas escalas de serviço e do QTS (milico sempre gostou de siglas), isto é, quadro de trabalho da semana. Eu me oferecia para ajudá-lo, especialmente nas vésperas de marchas com pernoites em acampamentos que tínhamos de montar, enquanto sargentos e oficiais apenas observavam, ou mais exatamente, coçavam o saco.

Eu sugeria ser escalado como sentinela, coisa que ninguém queria, porque as marchas cansavam muito. Os coleguinhas não eram nem um pouquinho inteligentes: à noite, no acampamento montado, todos dormiam.

E eu, sentinela, também dormia…

E por me propor ao “sacrifício”, me livrava de tirar serviço no fim de semana, que era consagrado à caça ao segundo sexo. No meu ranking, o primeiro lugar é delas e não há Fluminense que reverta a colocação. A colocação aí, minha senhora, podes crer, não se reveste de malícia!

Com essa aproximação – confesso que safadamente ardilosa – eu conseguia passar mais tempo fora do que dentro do quartel. Daí, passei a ser chamado de “Só Pena que voa”. Lembro também das minhas andanças pelo cassino dos oficiais, onde eu chegava sorrateiramente para degustar doces e salgados graças a um civil responsável pela bóia (*) fina dos maiorais.

Mas com esse civil eu tinha que ficar muito esperto porque ele era chegado em garotos.

Naquele época, quando não se usava o jargão atual do politicamente correto, ser chegado em garotos a gente chamava de veado.

Ah, mas não posso esquecer de mencionar meu melhor momento no Exército: era ali no mangue, bem no pé do Convento da Penha, onde eu matava dois coelhos com uma só cajadada, isto é, cumpria a função de sentinela e pegava caranguejo. Ali, longe dos vigilantes oficiais, sargentos e soldados dedos-duros, arrancava botina, o uniforme completo, capacete, deixava o fuzil de lado, e trocava tudo por uma imensa lata de banha onde colocava os caranguejos.

(Foto de Sandro Penna) – Oswaldo Oleari, Penna Filho e Marien Calixte, na exibição do filme Doce de Coco no Cine Metrópolis, na Ufes (Universidade Federal do ES)

…Nós éramos assim e, à Benjamin Button,…

Escalava um pouco a rocha e de lá ficava vendo a praia, a natureza maravilhosa da minha terra, enquanto a turma fazia a chamada ordem unida, isto é, aquele negócio de direita, volver, ombro, armas e o escambau.

Saudade nenhuma, apenas lembrança. O melhor viria depois: a Rádio Vitória, o convite de Fernando Perdigão, seu diretor geral para assumir a direção artística.

Prum moleque de 20 anos, sem eira nem beira, nascido em Santo Antônio e criado na Vila Rubim, dois dos mais antigos bairros de Vitória, a capital, era um presentaço.

…ficamos assim…

(Penna, Oleari e Marien – foto da época deste relato do manuvéi, Penna Filho).

Mais melhor ainda, como diria falar nosso ex-presidente, era conviver diariamente com Oswaldo Oleari e Marien Calixte, que eu já conhecia do rádio-teatro da Rádio Espírito Santo.

(*) Não obedeço ao acordo ortográfico nem que a vaca tussa.

Penna Filho é jornalista, radialista, roteirista, produtor e diretor de cinema.

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