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sbado, 18 de novembro de 2017

Ana Rieper, dretora de filme em exibição no 22º Festival de Cinema Itinerante: “0 brega é classíco”

“O flerte com o melodrama, na minha opinião, fala do “dramalhão” como algo que nos mobiliza profundamente
(Ana Rieper) 


Nesta entrevista, a diretora Ana Rieper (na foto, no set de filmagem, à direita) fala sobre o processo de criação e a carreira do longa-metragem “Vou Rifar Meu Coração”, filme em cartaz no 22º Festival de Cinema de Vitória Itinerante – Rota Verão, que percorre muncípios do Norte do ES até o dia 31 de janeiro. 

Formada em Geografia pela Universidade Federal Fluminense, Ana Rieper é documentarista e diretora de TV há cerca de dez anos. Sua primeira direção foi para o curta “Saara”, documentário sobre imigrantes da Rua da Alfândega, área de comércio popular da cidade do Rio de Janeiro. 

Esse filme participou de diversos festivais brasileiros e internacionais onde ganhou alguns prêmios, entre eles, o de melhor filme no Forumdoc.BH. A partir daí, Ana assumiu a direção de outros três documentários e de quatro longas-metragens, além de outros trabalhos para a televisão.

O documentário tem como tema o imaginário romântico, afetivo e erótico do Brasileiro tendo como guia a chamada música brega. Em relação a esse popular gênero musical, Ana faz um contraponto ao modo como, em geral, a crítica cultural percebe esse tipo de expressão artística: 

– “essas músicas são muito sinceras, muito abertas, muito pungentes e isso é o que importa”.

– Como surgiu a ideia para o documentário “Vou Rifar Meu Coração”?

A ideia de fazer o filme foi se maturando durante os quatro anos em que eu vivi em Sergipe. Foi quando eu comecei a conhecer melhor a chamada música brega e a gostar muito do que eu ouvia. Percebi que essa música tinha muita força e me chamou muita atenção o fato de que ela nunca havia chegado aos meus ouvidos.
Nessa época eu andava muito em pequenas cidades e povoados do interior e foi se revelando para mim uma forma muito aberta com que as pessoas lidavam com seus afetos e com a sua sexualidade em um ambiente conservador, machista e patriarcal.
Eu comecei a relacionar o sucesso dessas músicas que cantam as mazelas profundas dos assuntos do coração com essa cultura amorosa e daí foi se desenhando o “Vou Rifar Meu Coração”.

– Como foi o processo de escolha dos personagens populares para o filme?

A pesquisa para “Vou Rifar Meu Coração” partiu da identificação de temas e personagens recorrentes nas letras das músicas e de uma observação dos ambientes em que essas músicas se fazem presentes.
Surgiram assim alguns conceitos que orientaram todo o processo de pesquisa e a realização do filme. Abandono, prostituição, machismo, casamento, traição, homossexualidade, romantismo, lugar de homens e mulheres dentro dos relacionamentos amorosos, melodrama, relação com o corpo.
Eu preparei um longo briefing para os pesquisadores, baseado no meu conhecimento do interior dos estados de Alagoas e Sergipe, onde seria realizada a maior parte das filmagens, e na identificação destes temas e personagens. A partir daí, foi cair na estrada, comer muita poeira, conversar, ouvir estórias.

– O que pensa sobre essa categorização da música romântica popular brasileira enquanto “brega” e sobre o valor que a crítica cultural atribui a esse tipo de música?

O que eu quis foi fazer um filme sobre uma música que eu amo, que considero extremamente importante na nossa cultura e que nem sempre é considerada “de qualidade”, seja lá o que isso signifique. Essas músicas são muito sinceras, muito abertas, muito pungentes e isso é o que importa. Esse processo de legitimação das manifestações da cultura popular é muito questionável, porque sempre passa por um filtro de classe social. 
Em geral, os chamados formadores de opinião falam de um lugar elitizado e não compreendem o tipo de comunicação e poesia que essas canções propõem. Mas no filme, toda essa discussão fica subterrânea, apesar de aflorar em momentos bem pontuais. Os grandes temas do filme são as mazelas do amor e a forma como são vividas e cantadas nesse universo.
O preconceito em relação à música romântica popular é algo muito arraigado na chamada alta cultura no Brasil. Essa música ainda é sim considerada como produção de baixa qualidade artística, poética e musical por segmentos formadores de opinião, sobretudo ligados à critica musical. O que é um grande equívoco na minha opinião.
Esses artistas cantam lindamente, as músicas emocionam e se comunicam demais com um público enorme. São verdadeiros clássicos da canção brasileira. São artistas muito populares, com uma audiência muito estabelecida até hoje, que têm sua arte lastreada pelo gosto popular, atravessando pelo menos três décadas com grande sucesso.
O termo brega vem ganhando um status cult, um processo interessante. Isso nos grandes centros, porque nas periferias e cidades do interior não existe a noção de que esse termo é ligado a algo pejorativo, é simplesmente um gênero musical de que as pessoas muito gostam.

– Muitas das histórias relatadas no filme são dramas, as personagens demostram sofrer com seus afetos e vivências amorosas, porém a narrativa ganha um tom cômico. O que você pensa sobre esse paradoxo?

Eu acredito que o brega tem uma origem no melodrama, que inspira nossa alma romântica latina. E, certamente, todos os grandes nomes da nossa música popular têm referência no gênero em algum momento de sua trajetória. São narrações de situações amorosas com grande carga dramática e muitas vezes desfechos trágicos (às vezes cômicos). 
Por exemplo a música “Prazer em Conhecê-lo” do Noel Rosa, em que um ex casal que pelo visto não terminou muito bem é apresentado em uma festa como se não se conhecessem, situação constrangedora. Ou “Olhos nos Olhos”, do Chico Buarque (“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais”) e inúmeras músicas do Roberto Carlos, eu particularmente adoro “Proposta” (“Eu te proponho nós nos amarmos, nos entregarmos”).
Esse flerte com o melodrama, na minha opinião, fala do “dramalhão” como algo que nos mobiliza profundamente. E esses dramas da nossa vida íntima, são muitas vezes engraçados. Quem nunca deu risada de alguma situação bizarra que nos fez sofrer profundamente por amor, depois de passado algum tempo?

– Como o filme foi parar na televisão?

O filme estreou no Festival de Brasília, na Mostra Competitiva. Foi um reconhecimento importante já em sua estreia. A partir daí foram mais de 30 festivais no Brasil e no exterior, entre eles os festivais de Guadalajara, Toulouse, Atlantidoc (Uruguai), Indie Lisboa, Mostra de São Paulo, In-Edit. Os principais prêmios foram o de Melhor Filme no In Edit, festival de documentários musicais que adoro, Melhor Filme no Festival de Cinema Brasileiro de Londres, Melhor Direção no Fest Cine Goiânia.
Depois disso virou uma série montada com o material bruto do longa, com grande parte de material inédito, para o Canal Brasil. A chegada do filme na televisão foi uma experiência muito preciosa para mim, é um momento em que ele é visto por um número muito grande de pessoas, sintonizadas naquele preciso momento. E me deu um retorno muito gratificante.

– Como recebeu a notícia da escolha do filme para fazer do 22º Festival de Cinema de Vitória Itinerante? Como acha que ele vai ser recebido pelo público do Festival?

Recebi o convite com a maior satisfação. É muito importante, como posição política mesmo, promover exibição de filmes em tela grande em locais onde não há cinema. 
O Brasil já foi atapetado de salas de exibição em tudo quanto é cidade do interior. A partir dos anos 70, com a difusão da televisão e projetos para uma comunicação de massas, essas salas foram encerrando suas atividades e com isso foi-se estabelecendo uma geração de pessoas que não sabem o que é cinema.
Iniciativas como esta suprem, de alguma maneira, essa lacuna.

– Quais são seus atuais e próximos projetos na área audiovisual?

Acabo de lançar nos cinemas o documentário “5 X Chico – o velho e sua gente”, sobre o rio São Francisco a partir do olhar de 5 diferentes diretores.
Neste momento trabalho no desenvolvimento de uma série para TV baseada no livro “Casa Grande e Senzala”, escrito em 1934 por Gilberto Freyre.

22° Festival de Cinema de Vitória Itinerante

ROTA VERÃO
26 jan (Terça-Feira) – Vila de Itaúnas – Conceição da Barra
Horário: 20 horas
Local: Em frente à Igreja de São Sebastião
29 jan (Sexta-Feira) – Guriri – São Mateus
Horário: 20 horas
Local: Praça de Guriri / Av. Oceano Atlântico
31 jan (Domingo) – Vila de Regência – Linhares
Horário: 20 horas
Local: Praça Caboclo Bernardo – todas as sessões são gratuitas!
Vou Rifar Meu Coração (Documentário / 78 minutos / 2012 / Brasil), de Ana Rieper.

Sinopse: o filme é um convite para que embarquemos numa viagem sobre imaginário romântico e afetivo brasileiro a partir dos principais nomes da música popular romântica, também conhecida como brega. 

Letras de músicas de artistas como Odair José, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Evaldo Braga, Nelson Ned, Amado Batista e Wando, entre outros, formam verdadeiras crônicas dos dramas da vida a dois. 
No documentário, os temas das músicas se relacionam com as histórias da vida amorosa de pessoas comuns, enfrentando o desafio de falar sobre a intimidade de pessoas reais, em situações reais.

Enviado por Danielle Ewald

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