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quinta, 12 de dezembro de 2019

Rubens Pontes: A Alvorada do amor, Olavo Bilac – Poesia todo dia

Sábado com Bilac

– “Você, amigo Oleare, cronista revelado pelo jornalismo, perceberá certamente no poema de Olavo Bilac – Alvorada do Amor – uma cadência rítmica que bem poderia ser inserida no texto de de uma crônica (Orlando Eller é um mestre nesse tipo de composição).

O apelo ao amor para a remissão do pecado…. Ah! se fosse assim… iriamos (quase) todos para o céu…(Rubens Pontes).


A alvorada do amor

Olavo Bilac

Um horror grande e mudo, um silencio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:
“Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! Tudo nos repele! a toda criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta.
Abre a terra em vulcões, encrespa as águas dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…
Vamos! que importa Deus? Desata como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-se a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-se os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto.
Amo-te! sou feliz! Porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas!
Porque a vida eterna arde em tuas entranhas.
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno do teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico na Terra, à luz dos olhos teus,
– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus”.






Rubens Pontes
é jornalista

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