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sexta, 17 de novembro de 2017

Manoel Goes Neto: Preservar é mais que tombar

O autor aborda as questões tombar e preservar.
– “Preservar é muito mais abrangente que tombar”, afirma Manoel Goes.


A preservação do patrimônio histórico, no senso comum, tornou-se sinônimo de tombamento no Brasil, o que acredito ser uma visão muito equivocada.
Preservar é muito mais abrangente que o tombar. A preservação diz respeito a um conjunto de medidas, desde intervenções físicas no bem cultural até políticas públicas. São iniciativas destinadas à preservação do patrimônio para as gerações futuras. 

O tombamento é uma dessas medidas. No nosso país, e consequentemente no nosso estado, não temos uma cultura preservacionista arraigada na sociedade, e que vemos claramente nos países de culturas milenares, portanto, contamos com o tombamento como o passo inicial deste processo. Somos muito carentes, com problemas básicos não resolvidos, como pobreza e falta de escolaridade, e isso limita a possibilidade de desfrutarmos do nosso patrimônio histórico, dando chance às pichações e vandalismos nas peças históricas.

As pessoas nem param para pensar que existe um passado muito rico na história da nossa colonização capixaba, com coisas esteticamente bonitas, que contam as nossas origens, a nossa história. A maioria está tão preocupada com o básico, que nem tem olhos para o prazer da contemplação, das poucas peças históricas que ainda temos, no Sítio Histórico da Prainha. 

Não há como negar que existe uma hierarquia de necessidades. De outro lado, no mundo inteiro, todos os valores da cultura atual são de descarte, de inventar novidades, buscar o novo pelo novo, até para movimentar a economia. Além disso, como fomos uma colônia, sempre imitamos um paradigma português e europeu. Estamos habituados a esperar modelos de outras sociedades.

E na contra mão deste conceito, nós do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha, no nosso voluntariado, buscamos o tempo todo, alertar para a necessidade de se expor e divulgar, mais e mais, detalhadamente, a nossa história, as nossas origens. 

Realizando importantes entregas, como a recente estátua da donatária da Capitania do Espírito Santo Dona Luiza Grimaldi; como também a campanha de limpeza e restauro dos poucos monumentos de Vila Velha/ES, no “Projeto Cuidando dos nossos Monumentos”, vandalizados e sem a conservação devida pelo poder público. Chamando a atenção de toda a comunidade de que, todos nós somos responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e cultural das nossas cidades.

Há muita indiferença e má vontade em relação à preservação. Fica tudo a cargo do Estado. No Congresso Nacional, não há representantes desse interesse. Isso acontece porque os atingidos são os especuladores imobiliários. Não são todos, mas há empresas e pessoas que não podem imaginar ter uma atividade lucrativa em uma casa tombada. 

Um empreendimento, como um restaurante, ficaria muito mais charmoso. Chamo de especuladores aqueles que só veem uma forma de ganhar dinheiro: por meio da destruição. E o nosso Sítio Histórico da Prainha corre um sério risco neste sentido; mais uma motivação para o nosso voluntariado na preservação do pouco de monumentos históricos que ainda temos.

Temos uma visão equivocada de que restaurar é fazer o local retornar ao seu estado original, que muitas vezes nem sabemos qual era. Ou completar o que falta. A política de preservação do patrimônio histórico brasileiro já foi bem pior, no sentido de ser mais restrita. Há, atualmente, mais recursos canalizados para a área da preservação. 

Mas também um despreparo geral dos profissionais do ramo, que não têm conhecimento especializado para a restauração das peças históricas. Acelerar a preservação não dá certo, porque é um processo cultural e porque a intervenção física precisa ser feita com muito cuidado e pesquisa. Desse ponto de vista, há mais recursos, mas com gente despreparada. O resultado pode ser mais destruição do que preservação.





Manoel Goes Neto é membro 
do IHGES e IHGVV 

[email protected]

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