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sbado, 21 de setembro de 2019

Rubens Pontes – Meu poema deste sábado / Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada




– “Pândito Oleare,

…Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho – o “nosso” Manuel Bandeira – não foi
apenas o esplêndido tradutor de Shakespeare, Schiller, Goethe, mas o poeta que renovou a linguagem poética brasileira em livros como “Libertinagem”,
como você mesmo tantas vezes reconheceu.

Certamente para prestar sua reverência ao poeta, Manguinhos recebeu
este sábado de braços abertos, com o sol claro e ameno, acolhedora,
quase indiferente aos desoladores e rotineiros episódios que marcam
o dia a dia político deste nosso tresloucado País.
Uma quase Pasárgada para quem demanda refúgio, assim como uma ilha distante como a de Robson Crusoé .

Nada mais oportuno, e não fosse só por isso, do que a leitura de
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
do poeta que continua há décadas encantando os leitores de poesia.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada.

Vou-me embora pra Pasárgada.
Aqui eu não sou feliz.
Lá a vida é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive.

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro bravo
Tomarei banho de mar.

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar.

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção.
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostituta bonita
Para a gente namorar.

E quando estiver mais triste,
Mas triste de não ter jeito,
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei.

Vou me embora pra Pasárgada.



Rubens Pontes
é jornalista

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