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quinta, 12 de dezembro de 2019

Aqui Rubens Pontes – Meu poema deste sábado / J.G. de Araújo Jorge: Essa…



– “Comendador Oleari

J.G. de Araújo Jorge foi um dos poetas mais lidos e mais combatidos da minha geração. 

Com a arrogante petulância de quem achava Rimbaud o maior poeta da galáxia, o acreano locutor de rádio e produtor de programas radiofônicos era para muitos de nós – e aí eu me incluía – um poeta menor.

Só quando superei essa fase de “afirmação” intelectual é que reconheci o talento do seu colega radialista como poeta e passei a ler com outros olhos e principalmente com outro coração os versos que o consagraram.

É de J.G. de Araújo Jorge meu poema deste sábado.

Bela festa a de ontem, hein? Para ser cantada em prosa e verso a belíssima abertura dos jogos olímpicos. Meu orgulho brasiliano inflou minha alma como um balão de ar quente flutuando nos céus da Capadócia…
Bom fim-de-semana, Rubens”.


Essa…

Essa, que hoje se entrega aos meus braços escrava
olhos tontos do amor de que aos poucos me farto,
ontem… era a mulher ideal que eu procurava
que enchia a minha insônia a rondar o meu quarto…

Essa, que ao meu olhar parado e indiferente
há pouco se despiu – divinamente nua -,
já me ouviu murmurar em êxtase, fremente:
– Sou teu! … E já me disse, a delirar: – Sou tua !

Essa, que encheu meus sonhos, meus receios vãos,
num tempo em que eram vãos meus sonhos, meus receios,
já transbordou de vida a ânsia das minhas mãos
com a beleza estonteante e morna dos seus seios !

Essa, que se vestiu… que saiu dos meus braços
e se foi… – para vir, quem sabe? uma outra vez.
– segui-a… e eu era a sombra dos seus próprios passos..
– amei-a… e eu era um louco quando a amei talvez…

Hoje, seu corpo é um livro aberto aos meus sentidos
já não guarda as surpresas de antes para mim…
(Não importa se há livros muita vez relidos
importa… é que afinal, todos eles têm fim…

Essa, a quem julguei Ter tanta afeição sincera
e hoje não enche mais a minha solidão,
simboliza a mulher que sempre a gente espera…
mas que chega, e se vai… como todas vão…

(Do livro – Amo – 1939)
J. G. de Araújo Jorge






Rubens Pontes
é jornalista

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