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tera, 21 de novembro de 2017

Heitor Spagnol dos Santos: Cuidado paliativo é sinônimo de qualidade de vida


– “Não se trata de suspender tratamentos, mas de ampliar o cuidado para uma pessoa que está em extremo sofrimento e mostrar a ela que vale a pena viver até o último dia”, diz o Dr. Heitor Spagnol dos Santos, autor do texto.



O modelo de formação dos médicos no Brasil é muito mais voltado para o tratamento de doenças em si, e pouco se discute em relação àqueles casos onde a cura já não é possível. Por vezes, acabamos deixando de entender que quem necessita do tratamento é o doente e não a doença. 

A exemplo disto, os pacientes portadores de doenças consideradas graves e, em determinados momentos, em condição de terminalidade, necessitam mais de atenção e cuidados com sintomas do que propriamente intervenções cirúrgicas ou intensivas de cuidado à vida. Intubação orotraqueal, ventilação mecânica e hemodiálise são procedimentos que, por vezes, são indicados pensando-se apenas na longevidade, pouco observando-se o quanto, de fato, podem representar em dignidade e qualidade de vida.

Esse grupo de pacientes, representado por portadores de câncer, falências orgânicas como cardiopatias, nefropatias ou pneumopatias, e por pacientes com fragilidade e síndromes demenciais, apresenta sinais e sintomas que podem ser resolvidos ou controlados de forma eficaz com boa prática médica que não necessariamente requer grandes recursos tecnológicos. 

É neste sentido que a atenção da equipe de saúde deve estar voltada a todas as características e condições de cada paciente, a fim de atender às necessidades e controlar sintomas, não apenas do ponto de vista físico, mas também o sofrimento emocional, social e espiritual. É aí que os Cuidados Paliativos fazem a diferença.

Trata-se de uma área da assistência à saúde relativamente recente no Brasil, que oferece atendimento multidisciplinar a pacientes com doenças potencialmente mortais e seus familiares. Os Cuidados Paliativos foram definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2002 como uma abordagem – ou tratamento – que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida. 

Para isso, reúne habilidades de uma equipe multiprofissional, com envolvimento de médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e assistentes espirituais. As ações incluem medidas terapêuticas para o controle dos sintomas físicos, intervenções psicoterapêuticas e apoio espiritual ao paciente e seus familiares do diagnóstico ao óbito.

Os pacientes caracterizados como elegíveis para Cuidados Paliativos recebem avaliação compatíveis com as suas necessidades para controles de sintomas. A equipe interdisciplinar avalia os pacientes com doenças que vão desde insuficiências cardíacas de difícil controle até casos de câncer em condição de terminalidade, em pacientes das mais variadas idades, procurando oferecer, dentro de um atendimento de excelência, a manutenção da dignidade e humanização.

Um dos principais desafios desta área é quebrar a noção de que optar por cuidados paliativos significa desistir do paciente. Não se trata de suspender tratamentos, mas de ampliar o cuidado para uma pessoa que está em extremo sofrimento e mostrar a ela que vale a pena viver até o último dia. O fato da doença não ter cura, não significa que devemos abandonar o paciente. 

Pelo contrário, é importante entender a doença e conhecer os limites do paciente, ajudar no tratamento de dor, nos problemas com a falta de ar, cansaço, dificuldade de alimentação que muitos desses pacientes têm nesta fase final, etc. Com o apoio psicológico e atenção dedicada, a proximidade com a família e ainda a medicação, muitos pacientes acabam vivendo muito mais do que esperavam.



Heitor Spagnol dos Santos 
é geriatra e médico 
de Cuidados Paliativos 
do 
São Bernardo Apart Hospital

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