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tera, 16 de julho de 2019

Rubens Pontes – Meu poema de sábado / Chão de Estrelas: Orestes Barbosa e Silvio Caldas


Ouça lá no final Elizete Cardoso e Silvio Caldas cantando o clássico tema.



– “Preclaro Oleari ou Oleare:

Afinal é Primavera, o que  pode, ou não, significar alguma coisa além de
vencer o frio que vinha injustificadamente à beira mar nos castigando.
Nem os ingleses – que lamentam quando o dia é mais curto do que a noite,
nem  os franceses – que suspiram quando a noite é mais curta do que o dia,
nem  um  nem outro nada  diria nesta Estação tão brasileira.
Afinal,  nesses floridos tempos,  os dias e as noites não digladiam por espaços:
– são absolutamente iguais, 12 horas para cada um deles…
Se é Primavera e os jardins floridos, se o sol é ameno e os dias
luminosos, é tempo de nos alegrarmos, ligar a nossa RCBM e
confirmar que boa música  não envelhece.
Naqueles antigos tempos, a aula era de literatura no velho Ginásio ” Afonso Arinos,”
em Belo Horizonte. O professor realizou uma “enquete” para que os
alunos escolhessem os mais belos versos da poesia brasileira.
Venceu “Auri-verde pendão da  minha terra/que a brisa do
Brasil beija e balança”, de Castro Alves.
Perdi porque escolhi:
“E a lua furando nosso zinco/salpicava de estrelas nosso chão.
Tu pisavas nos astros distraída…”, de Orestes Barbosa.
Hoje, tantas décadas percorridas, por ser agora Primavera, por ser ameno o  sol
e este dia tão luminoso, permito-me instantes de ternura escolhendo
os versos de “Chão de Estrelas” como o poema de saudade
neste sábado de setembro.
Cante, comendador Oswaldo Oleare, você também.

Abraço, Rubens”.


Chão de Estrelas

Silvio Caldas e Orestes Barbosa

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

rubens pontes

é jornalista

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