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sbado, 21 de setembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: meu poema de sábado – Esta Vida, Guilherme de Almeida

Ao final, ouça o vídeo Canção do Expedicionário

– “Douto Oswaldo  Oleare


– Jornalista, poeta, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, 
em São Paulo, primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de
Letras, Guilherme de Almeida exerceu forte influência  sobre mais de uma geração
de intelectuais brasileiros, a partir de 1930.


Foi ele o introdutor no Brasil do  haikai, poemas japoneses destacados no Espírito Santo em livro de Marien Calixte, e o  autor da letra da Canção do Expedicionário 
que embalou os pracinhas brasileiros no front italiano na segunda guerra mundial.

Entre dezenas de poemas e sonetos do grande poeta brasileiro, selecionei,
para leitura neste sábado, “ESTA  VIDA”…”

Abraço, Rubens”.



Esta vida


Guilherme de Almeida


Um sábio me dizia: esta existência,

não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,

és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quatro círios acesos: eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre

a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!

Fecha os olhos e sonha meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,

dentro da própria vida, o encanto de viver.

http://www.casaguilhermedealmeida.org.br/casa-guilherme-de-almeida/



Rubens Pontes
é jornalista,
escritor, 
poeta,
proseador,
e faz
um feijão tropeiro dusbão, dos tropeiros das velhas estradas das Minas Gerais.

Poesia todo dia

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