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tera, 21 de novembro de 2017

Orlando Eller: Ovos quebrados





Disse a ele que dia qualquer, possível fosse, adoraria conhecer a granja de galinhas poedeiras em que trabalhava. Nada de tão excepcional em minha pretensão, já que então não me interessava essa maravilha de concentrar tantas aves em tão miúdo espaço; eu só aspirava entender como se faz para que ambiente assim, de clássica amargura, possa se ganhar troféu e se tornar referência como capital do ovo.

E ele me respondeu, prontamente:

─ Pois você é meu convidado. Que seja num sábado, emendando dias. Então, domingo pela manhã a gente assiste à corrida de Fórmula Um, aprecia um trago da melhor cachaça, toma todas possíveis e saboreia uma galinha afogada no molho de cerveja. E, à tarde, se quiser, fique para curtir comigo o Fla-Flu das 16.

Aceitei.

Semanas depois, no cedinho de sábado, fui. Deixar de vez em quando a Vila desurbana, no final de qualquer semana, faz um bem danado à alma angustiada por tanta ânsia, a de esperar que um dia esta cidade, entre tantas, possa ser humanamente acolhedora. Sei, ancorado em arraigada certeza mestiça, que em geral as nossas urbes persistirão sendo parque em um dia e curral no outro.

Pouco trânsito, cedo que ainda era, nada havia que chamasse minha atenção. Não admirei casas, nem casebres; nem gentes que iam ou vinham em sofreguidão sobre calçadas de canteiros urbanos. Por isso, ative-me somente na cautela, razão dos contrários da direção e das sinaleiras sem pressa.

Saído da urbe, asfalto em meandros como os de um rio de cobras, ganhei de presente inusitada imagem célica de imponente pé de ipê amarelo que abrolhava acima da mata, como que batendo continência para as benfeitorias da Criação.

Minha mulher me disse alguma coisa, acho que alegre, de que não me lembro mais. Como ela, inebriado pela graça de receber e ver ao redor tanta generosidade, acho que não avaliei ter apenas enxergado tão somente um ipê sobrevivente da sanha humana. 


Assim, brandido pela insólita paisagem, segui as brechas que se abriam nas capoeiras marginais onde, não raro, todos os dizeres de segurança rodoviária jaziam escondidos em moitas verdes. Parecia até que era coisa de propósito.

A caminho sobre rodas de borracha, revivi tantas e quantas vezes a sós percorri muitos quilômetros de estradas, de chão batido, nos baixios de Baixo Guandu, Itueta e Aimorés afora, até alcançar as serras que dão a lugares preciosos para a minha reminiscência, como o Córrego Dez do Mutum, o Vargem Alegre e o Jacutinga.

A caminho, muito da história e das imagens guardadas reviveu. Mas o que até então mantinha importância eram as galinhas escravas, fonte de ovos, pequenos, médios ou grandes. Pequenos ou médios, entendo; mas grandes, como se produzem? Há segredo de mão sutil decorrente da estratégia para garantir vantagem econômica?

─ Caro ─ me disse ─ afiançando que o modo de produzir ovos grandes deriva de uma escolha química: “É só oferecer esta ração às galinhas ─ confidenciou ele, recomendando sigilo ─ ao escancarar a boca de um saco repleto de ração específica, entre os muitos guardados no exíguo ambiente da granja.

Era manhã, dez horas, sei lá… Fui com ele até a granja. Me disse que iria colher ovos e abastecer as baias com ração de postura, como de rotina, ou praxe. Tudo me era novidade. Então, cada detalhe contava. E nada me escapava nada à vista.

Colheu daqui, catou dali, e cada ovo naquela manhã foi recolhido quão prêmio, coisa de valor único que, somado, vai enchendo um cesto, o da recompensa. Com certeza, nada se faria diferente em qualquer granja, perdida que estivesse nos recantos da avicultura do Brasil. Uma coisa de reza comunitária.

Nada em particular despertou a minha observação, a não ser quando ela, a senhora do meu amigo, passou depois da ceifa diária recolhendo os ovos que, por alguma razão, tinham se quebrado durante a postura. Todos, sem exceção, foram depositados em recipiente plástico retirado de velha geladeira minutos antes , e que já continha um tanto de ovos tingidos de bosta.

Então, depois de descobrir por que as galinhas botam ovos grandes, perguntei a ela: “Para que presta este monte de ovos quebrados, em que se vê tanta sujeira?”

E ela me respondeu decidida: “Toda semana passa aqui um cara da fábrica de macarrão. Eu forneço pra ele, que me paga barato; mesmo assim, me vale, porque eu ganho algum que me vale a pena”.





Orlando Eller
é Jornalista

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