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quarta, 18 de outubro de 2017

Jonas Reis: Era uma vez no rádio (Da série Colatina ficou devendo homenagem à RESanto nas enchentes do Rio Doce, em 1979) – Diagonal

Diagonal, coluna do Oleari

O relato do chefe Don Oleari sobre a cobertura da enchente do Rio Doce em 1979 mexeu com alma e coração de quantos participaram daquela experiência.
Eu vivia minha infância no jornalismo.

Até pouco, muito pouco tempos antes, era técnico na Telest, bem encaminhado profissionalmente. Mas tinha um vazio no peito. Chutei o emprego, para desespero da família, e entrei no curso de Comunicação da Ufes.

Comprei três calças jeans, meia dúzia de camisetas brancas, dois pares de tênis e uma bolsa de tiras longas, para levar pendurada no ombro. Com esse novo uniforme fui à Rádio Espírito Santo e, meio tímido, pedi para falar com o chefe do setor.

Oleari me ouviu e, em seguida, me jogou no colo o tal gravador National de três quilos:

– Vai pra rua e me traz uma entrevista.

Desse jeito, sem mais.

Assim começou minha própria Era do Rádio. Era final da década de 1970, a mudança política do Brasil já estava atrás da porta. Logo seria adotado o pluripartidarismo, os governos biônicos chegariam ao fim e viveríamos a redemocratização do país.

Com o velho e pesado gravador National registrei o lamento da gente simples de comunidades carentes de Vitória, entrevistei Roberto Carlos e ainda cobri visitas dos generais-presidentes Médici e João Figueiredo.

Mas em 1979, quando essas mudanças ainda estavam em gestação, o céu desabou no interior do Estado. O mundo parecia disposto a outra vez se acabar em água.

O Rio Doce encheu e saiu carregando tudo. Na Rádio Espírito Santo, sem que se traçasse um rumo prévio, teve início uma extraordinária cobertura da catástrofe, Don Oleari à frente. Com sua autorização fui engolido pela barriga insaciável de um avião Hércules da FAB, misturado a toneladas de mantimentos e agasalhos para os desabrigados.

Do que aconteceu então já se falou muito aqui. Mas a memória me obriga a registrar a visão pessoal que tive do fim do mundo: o Hércules cortava a chuva no alto e eu via lá embaixo a desolação de famílias ilhadas nos telhados, gado isolado nas colinas, um mar de água barrenta e nem sinal do leito do rio.

Registramos o encontro dos governadores do Espírito Santo, Elcio Alvares, e de Minas Gerais, Francelino Pereira, em meio à lama, gravamos a desolação de famílias que perderam casa, plantação, galinhas e porcos, e vimos o brilho nos olhos de crianças que recebiam um par de chinelos ou um brinquedo qualquer nos abrigos instalados em escolas e igrejas.

No alto de uma ladeira, em Colatina, me emocionei ao ver um grupo de desabrigados reunidos em torno de um rádio ouvindo nossa cobertura da tragédia, com informações, orientação sobre deslocamentos, guiando ações de grupos de voluntários e equipes de assistência médica e social.

Voltamos dias depois à base com uma roupa barrenta e bolsos cheios de fitas cassete gravadas. Depositamos tudo sobre a mesa do chefe, saindo discretamente do alcance daqueles olhos fundos e indormidos das muitas noites de vigília.

Lembro de alguém me perguntar então se havia aprendido a lição, se não queria voltar ao antigo emprego. Mas o efeito foi oposto, estava batizado no jornalismo.

Jonas Reis é jornalista, formado em Comunicação Social e em Direito pela Ufes, e especializado em Direito do Estado pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro.


Pitaco do Oleari

De uma turma grande co Curso de Comunicação da Ufes que me procurou no período em que eu remontava o Departamento de Jornalismo da Rádio Espírito Santo, Jonas Reis foi o mais rapidim e rasterim a obter o “aprovo” pra entrar na equipe.

Saiu com aquele gravador National de uns 3 quilos, foi, fez, escreveu. Pronto, tava dentro.

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