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segunda, 22 de julho de 2019

Alvaro Nazareth: Movimento – Unanimidade II

quinta-feira, 20 de julho de 2017


No varejo, ficou no carreirão do 
Wilson Bueno; 
no atacado do futebol, 
o resultado negativo é elevado à potência máxima e o uso da unanimidade burra detona o próprio futebol.




Uma predominância individual, natural, fruto de um acaso, como o narrado no episódio Unanimidade, causou um estrago proporcional, contido, que atingiu e penalizou apenas o protagonista urdidor da trama, no caso, o Wilson Bueno.

Imagine-se agora algo fabricado coletivamente, com a participação ativa de setores formadores de opinião em uma sociedade, capazes de induzir imensas massas a assimilarem as mensagens que lhes são dirigidas como se fossem verdades, boas verdades?


Os nazi-fascistas fizeram isso nos anos 30 e 40 do século passado e, felizmente, fracassaram. Não sem antes devastarem a Europa, o Japão e parte da Ásia e da África, deixando, o pior de tudo, um saldo de muitos milhões de mortos e mutilados (estes, física e emocionalmente).

Guardando as imensas e devidas proporções, há mais de quatro décadas desenvolve-se no Brasil um processo dessa natureza e que fere e sangra de morte uma das principais paixões nacionais: o futebol. Por usá-lo como principal ferramenta para obtenção de resultados … negativos, como ficará demonstrado mais adiante.

Antes restrito ao famoso e reconhecido radicalismo ingênuo sincero pró Flamengo do compositor-narrador-torcedor intransigente e genial Ary Barroso – autor de Aquarela do Brasil, entre muitas outras obras célebres, como No Rancho Fundo e na Baixa do Sapateiro –, o movimento, então ainda não devidamente delineado, expandiu-se a partir da passagem do almirante Heleno Nunes (vascaíno declarado, nada contra) pelo comando da então CBD, depois CBF.

O País atravessava a ditadura militar, dispunha de uma imensa fartura de grandes craques de futebol, ganhara a Copa do Mundo de 1970 – a terceira em sua trajetória –, João Havelange se elegera presidente da Fifa e o governo (Arena), em baixa, perdera feio uma eleição para a oposição (MDB). Entenderam, então, ser chegada a hora de utilizar o prestígio popular do futebol para embriagar o povo.

Naquele tempo não era incomum partidas assistidas por um público superior a 100 mil torcedores.

Criaram, aí, a primeira versão do Campeonato Brasileiro, o Brasileirão, um monstrengo filho direto e dileto da megalomania, com nada menos que 80 participantes, com vários grupos em outras tantas chaves a proporcionar uma infinidade de quadrangulares classificatórios e finais até se chegar ao quadrangular final de verdade, que deveria ter a presença garantida de Corinthians, Flamengo, Atlético Mineiro e um outro menos votado, tal como Grêmio, Bahia, Goiás, Santa Cruz, ou Sport ou Náutico, os times mais populares em seus estados. Deixando de fora um Palmeiras, grande ganhador e dono da terceira maior torcida, os italianos.

Foi um momento determinantemente trágico. Ali se definiram os rumos do futebol brasileiro que o conduziriam à mediocridade dos dias atuais. Porque o distinto público, e comentaristas corretos como João Saldanha, logo perceberam que aquela torrente de jogos não valia nada. O que valia era o quadrangular final, que realmente definia o campeonato – um torneio gigante, na verdade.

Os casuísmos se sucederam no afã de assegurar a presença dos times de grandes torcidas nas finais. Chegaram ao cúmulo de, diante de um rebaixamento regulamentar do Flamengo, criarem às pressas uma incompreensível, para nós, humildes mortais, classificação por renda para o time não cair.

Os critérios técnicos e contratuais foram revogados e substituídos pelos interesses políticos e comerciaisprofissionais de marketing torcedores, orientados pelo feeling dos profissionais de marketing torcedores do momento.

Tudo isso aconteceu com a cumplicidade do setor então considerado o quarto poder: a Imprensa. Que, inicialmente, se acumpliciou, e, logo depois, assumiu o protagonismo na condução e consolidação desse projeto de redução do futebol às unanimidades, aos times de grandes torcidas.

Não deu outra: o público sumiu dos estádios.

O reinado do almirante Heleno Nunes durou de 1974 a 1980, substituído por Giulite Coutinho (80 a 86) e este pelo indefectível Octávio Pinto Guimarães (86 a 89), aquele que fumava cigarro com longa piteira.

Porém, a verdadeira tirania ainda viria. E veio, a de Ricardo Teixeira, então genro de João Havelange, codinome de Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange. Foram 23 anos de domínio absoluto do Ricardo Teixeira. Entre os resultados: uma Copa envergonhada nos EUA (1994), muitos fracassos e uma Copa meritória em 2002.

Entrementes, no planeta Brasil o plano inclinado era só de declínio o tempo todo.

Economista, Jornalista e Publicitário. Trabalhou no jornal O Diário, Rádio Espírito Santo, Revista Agora, Jornal da Cidade, A Gazeta e A Tribuna. Fundou a Uniarte Agência de Propaganda e dirigiu comercialmente a Eldorado Publicidade, a Rede Tribuna e o jornal eletrônico Século Diário. Foi Secretário de Comunicação da Prefeitura de Vila Velha e do Governo do Estado do Espírito Santo.

Continuaremos no próximo capítulo com o título Unanimidade III. Aguardem.

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