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sbado, 14 de dezembro de 2019

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – “Amor – Pois que é palavra essencial”, Carlos Drummond de Andrade

Marilyn Monroe

Não podemos negar nossas origens africanas e sua influência particularmente na cultura brasileira.

Sabemos, porque foi publicado, que a conclusão de pesquisadores da Universidade da Califórnia mostra que todos os humanos somos descendentes de uma única mulher que viveu no Continente Africano há mais de 200 mil anos: a Eva Mitocondrial.

Seu DNA passou de geração a geração e está hoje presente em todas as pessoas, de todos os Continentes.

Esta abertura, espécie de “nariz de cera” dos textos que se praticava nos jornais da terra, se destina a nos situar num contexto que até nos poderia levar ao doutor Freud para, com divã ou sem divã, entender a peculiar atração da nossa gente pelo “derrière” das nossas mulheres.

O nome “bunda” – que encantou poetas como o nosso Carlos Drumond de Andrade – não é invenção brasileira.

Nas levas de escravos que cruzaram os mares para trabalhar nos eitos do País em formação, expressivo número delas veio de Khoisan, grupo étnico do sudoeste africano.

As mulheres dessa tribo (foto) possuíam uma característica genética peculiar, com a acumulação de gordura nos glúteos, a esteatopigia.

Essa era a tribo dos Bunda,ainda hoje existente, segregada no deserto de Kalahari, na Namíbia (mapa).

Por analogia, passamos a chamar de bunda o traseiro que, nas mulheres brasileiras, para muitos no mundo todo, é um adereço de irresistível atração.

Isso posto, entoando hosanas a Drummond, ofereço aos leitores do Portal Don Oleari (*) o magnífico poema “Amor – Pois que é Palavra Essencial”, onde, mais uma vez, o poeta itabirano urde, sempre bem humorado, erotismo nos seus versos (Rodrigo Mello Rego).

AMOR – POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

Carlos Drummond de Andrade

Amor-pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro de vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago
Em pequenino ponto desse corpo
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suporta
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida
como ativa abstração que se faz carne
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, quais estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus o amor terrestre.

(in “O Amor Natural” – CDA)

(*) O jornalista Rodrigo Mello Rego – jornalista, Mestrado em Letras, pesquisador de literatura erótica – acrescentou um comentário:

– Honrado em participar do seu trabalho tão criativo na área da comunicação, estou encantado com o tratamento dado aos meus textos e poemas escolhidos.

E agradavelmente surpreso por constatar que em nenhuma das publicações houve qualquer censura, conforme ajustado.

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