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segunda, 22 de julho de 2019

Aqui Rubens Pontes: meu Poema de sábado – O dia da Criação, Vinícius de Moraes

No final, ouça Vinícius dizendo seu célebre poema num xou do Canecão.


Fidus Achates (como na Eneida) Oswaldo Oleare


Sempre me intrigou a criação do calendário que rege todos os passos que damos ao correr
da vida, marcando nosso tempo, determinando nossos dias de trabalho e de “descanso”…
e até nosso tempo de permanência transitória neste planetinha metido a besta.
Então a semana tem sete dias, o mês trinta ou trinta e um e o ano 365, levando-se em
consideração, para acertar a contagem que não é exata, que há o ano bissexto.

No caso que enfocamos, em particular atemo-nos aos nossos sábados,
aos quais se mantém fieis os espanhois – sabado mesmo, os italianos – sabato,
os franceses – samedi, os ingleses – saturday, os alemães – samtang, e até os filipinos – sábado.

O que se sabe, mais ou menos, é ser o sábado o último dia da semana, oferecido 
ao Criador da 
instância da nossa vida, a Chronos – o pai dos tempos na Mitologia grega, à direita – e a Saturno, para os romanos.

A astrologia popularizou, no Império romano, o uso da setimana (latim: sete manhãs)
que, com o advento do cristianismo, o solis dies foi substituido por Dominica, o Dia do Senhor, e o saturni dies – Dia de Saturno, por sabbatum.

Narra o Gênesis, no Antigo Testamento, ter Deus no sexto dia do que iria ser a futura semana, um sábado,
ultimado a criação do Mundo, e com ele o homem,o nosso Adão. Parou para admirar sua obra. Viu que
era bom o que fizera, para só então descansar, no sétimo dia, o nosso domingo.

Com ou sem as anotações do Livro Sagrado ou os registros da Mitologia aos quais evidentemente jamais
tiveram acesso, é absolutamente fascinante a visão dos nossos índios tupis-guaranis sobre o tema
que tantos conflitos gerou no chamado mundo civilizado..
Marcavam eles o inicio do ano solar pelo aparecimento da Constelação das Pleíades – as sete estrelas –
próximo ao dia 11 de junho, e o seu calendário era praticamente exato, sem necessidade de correções
como o ano bissexto. Sábado era sábado e nada mais seria necessário perguntar ou ser perguntado.

A nossa decantada civilização não tem uma explicação racional para afixação do conceito de dia,
de semana, do mês e do ano….buscando para isso mitos gregos ou romanos
ou observando o movimento aparente do Sol e das revoluções da Lua – em vertiginosa
atualização com as observações dos satélites que nos abrem novos e até então
desconhecidos horizontes. E ainda tem, com a força de um tsunami, a Teoria da
Relatividade, de Albert Einsten… mudando todo o conceito de tempo e espaço…

O nosso poeta Vinicius de Moraes situa, com a beleza de seus versos, o sábado
como uma especie de “totem”, reverenciando o dia. Não apenas por isso, mas também
por isso, escolhemos para a leitura deste sábado o poema “O Dia da Criação”. Sem maiores
considerações porque absolutamente não é necessário.

O Portal Don Oleari, umbilicalmente ligado à Rádio Clube da Boa Música
(aí sim, com sua grade de programação, deve ser ouvida em todos os dias da nossa (ainda atual) semana,
aplaudiu com ênfase a escolha do poema para leitura neste sábado gregoriano.

Abraço
Rubens”.

O DIA DA CRIAÇÃO

Vinicius de Morais

O DIA DA CRIAÇÃO
Rio de Janeiro , 1946
Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis


Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.

Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


Rubens Pontes
jornalista,
publicitário,
escritor,
poeta,
prosador

Leia Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo:
https://rubenspontes.com.br/ – 

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