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segunda, 22 de julho de 2019

Alvaro Nazareth: Movimento – Unanimidade III: O tiro sai pela culatra.



No período analisado no texto anterior, Unanimidade II, o futebol brasileiro, que antes levava mais de
100 mil torcedores aos estádios, involuiu para uma média em torno das 12 mil testemunhas por jogo atualmente. 

Enquanto na Europa, nos Estados Unidos, na China, Japão e até na Argentina, os times jogam para

A melhor colocação de um time brasileiro no ranking internacional de presença de público por jogo não é do Flamengo, nem do Corinthians. É do Santa Cruz de Recife, a 39ª posição, com média superior a 36 mil torcedores por jogo em seu estádio.

O que deixa evidente que o flamenguismo e o corinthianismo praticados pela mídia, pela nossa tribo, seja por jornalistas, radialistas, publicitários, profissionais de marketing, dá tudo na mesma, foi equivocado e conduziu o Brasil ao fatídico sete a um de 2014.

Lógico que numa eventual final entre Flamengo e quem quer que seja, o estádio lotará e os apologistas do fracasso gritarão a plenos pulmões repetidamente que o Brasil é o país do futebol. O que não é verdade.

O jornalista Juca Kfouri afirmou recentemente que “o Brasil não é nem nunca foi o país do futebol” e que “a Inglaterra pode ser o país do futebol, com a reverência com que tratam o esporte e os jogadores. Até a Argentina é mais país do futebol do que o Brasil.”.

Mas, não foi apenas na queda de comparecimento de público aos estádios que a decadência do futebol brasileiro se manifestou. Apareceu, também, no declínio dos índices de audiência de TV e a explicação parece bastante lógica.

Exemplo um: Flamengo e Corinthians recebem, cada um, determinado valor em milhões de reais pela transmissão dos jogos. Enquanto ao Fluminense, Botafogo, Grêmio, Atlético Mineiro e Cruzeiro cabe pouco mais de um terço do valor pago a cada um dos dois unânimes. Tipo, Flamengo e Corinthians embolsam R$ 180 mi e os outros R$ 60 mi cada um. Cá para nós, tem cabimento?

Exemplo dois: Flamengo e Corinthians, primeira e segunda maiores torcidas, respectivamente com 16,2% e 13,6% dos torcedores, têm contra si, também respectivamente, 83,8% e 86,4% de torcedores contrários, que não são flamenguistas nem corinthianos e não assistirão a seus jogos. Ou seja, troca-se bem mais de 80 por muito menos de 20: negócio para quem quer quebrar rápido.

Objetivo que está sendo plenamente atingido. O Campeonato Brasileiro, inaugurado no atual formato de pontos corridos em dois turnos em 2003 – um grande acerto, registre-se –, míngua a cada ano em termos de público e audiência.

Com a política de privilegiamento dos times de maior torcida, a TV Globo agride a maior parte da audiência e colhe péssimos índices de audiência na transmissão dos jogos, abaixo dos 12 pontos na média. E já pensa em deixar tais transmissões para os canais pagos e os pay-per-views.

Qualquer reprise dos Trapalhões ou da Escolinha do Professor Raimundo dá audiência muito maior, que dirá Luciano Hulk ou Faustão.

Nada aqui contra o Flamengo, Corinthians, flamenguistas ou corinthianos, todos apenas atores e figurantes nesse grande palco.

Tudo contra, porém, a nossa tribo, o pessoal da dita imprensa escrita, falada, televisada e internetizada que embarcou, assumiu o comando e conduziu o barco aos fatídicos estágios atuais. Sob o glorioso comando mais recente de José Maria Marim (2012/2014) e Marco Pólo Del Nero (de 2014 para cá): o primeiro, preso nos Estados Unidos acusado de corrupção; o segundo exilado no Brasil, porque se sair a Interpol o prende, acusado pelo mesmo crime.

Essa turma, a da imprensa, ainda não se deu conta de que, se nada fizer em contrário, não pluralizar sua atuação, não democratizar os espaços entre todos os participantes, se condenará a enterrar o outrora glorioso futebol brasileiro e a jogar a pá de cal sobre o caixão.

A conta é simples: armar para dar um determinado resultado usando acintosamente 18 agremiações em favor de apenas dois é repetir Wilson Bueno com seu galo imbatível. Sem considerar que os tais 18 meros coadjuvantes podem combinar e não cumprir, como, aliás, tem acontecido com freqüência.

Afinal, como dizia Jorge Baiano, a palavra é deles e eles dão e tiram a hora que quiserem.

Economista, Jornalista e Publicitário. Trabalhou no jornal O Diário, Rádio Espírito Santo, Revista Agora, Jornal da Cidade, A Gazeta e A Tribuna. Fundou a Uniarte Agência de Propaganda e dirigiu comercialmente a Eldorado Publicidade, a Rede Tribuna e o jornal eletrônico Século Diário. Foi Secretário de Comunicação da Prefeitura de Vila Velha e do Governo do Estado do Espírito Santo.

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