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sbado, 14 de dezembro de 2019

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – / Poema Sujo, Ferreira Gullar





Honrando os Mello Rego, confesso não ter certeza se tenho laços de parentesco com Nathália Pinto do Rego, pernambucana de notável cultura, poliglota, falando – naturalmente além do português – inglês, grego, espanhol e latim, mestre em Estudos Clássicos pelo Programa de Pós Graduação em Letras da UFB – Universidade Federal de Pernambuco. 

Atualmente Nathália Pinto do Rego é professora substituta na área de Línguas Latinas e Filologia Romântica na Universidade Federal de Campina Grande.

O que sei é que meu saudoso pai andou peregrinando pelo Nordeste na sua impetuosa juventude, sem que nenhuma ilação no entanto possa ser, só por isso, levantada.
O que sei e com certeza, Don Oleari, é que os Rego Pinto sucederam genealogicamente aos Don Rego Leite, parece até que com certa pertinência…

O tronco da família, então radicada no Brasil, é o mesmo dos agrupamentos familiares que ocuparam os sertões nordestinos. De lá, o nosso Rego mais famoso foi o escritor José Lins.

Orgulho-me dos meus ancestrais das Astúrias, desde quando meu tetra-avô Lourenço Eanes de Gundar lavou a honra do Rego, que substituiu o anterior sobrenome de Lordelo.

A única restrição que faço pelo mau uso do nosso honrado nome, porque me parece indevido e indecorosamente pornográfico, é a assinatura no facebook da cidadã que se intitula Buceltides do Rego Roxo Pinto. É acessar e ver.

Quanto a mim, fujo da leitura, nem por curiosidade, sobretudo pelo respeito e orgulho do meu nome e sobrenome. Distingo, até por formação intelectual, poesia erótica de poesia pornográfica.

Mas, abordando o tema principal desta coluna, que os eruditos chamam de leit-motiv, digo que muitas vezes me perco procurando numa relação catalogada de oitocentos poemas eróticos apenas um que possa despertar o interesse de eventual leitor desta decenal coluna, passando pelo crivo do poderoso chefão.

Mas, afinal, já que enfocamos paisagens humanas do Nordeste que não é só caatinga, optei por um poeta maranhense (assinalo que não foi Presidente nem escreveu “Marimbondos de Fogo”), este sim, Ferreira Gullar, considerado um dos 100 homens mais influentes no Brasil no ano de 2009, “Prêmio Luiz de Camões” de 2010 – o mais importante prêmio literário da Comunidade de Países da Língua Portuguesa, Prêmio Jornal das Letras pelo poema “O Galo”, Prêmio Moliere, Prêmio Saci, Prêmio Jaboti.

Ferreira Gullar, então membro do Partido Comunista Brasileiro, foi levado a exilar-se durante a ditadura militar, buscando refúgio na então União Soviética, no Chile e na Argentina. 

Foi em Buenos Aires que escreveu e editou “Poema Sujo”, considerada sua obra mais ousada.

“Poema Sujo”, relacionado por muitos críticos literários entre os dez mais importantes poemas brasileiros dos últimos anos, é certamente a mais ousada obra do poeta. Foi escrita no exílio, em Buenos Aires, em 1975.

Considerado um dos 10 mais importantes poetas do seu tempo, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, onde foi recebido com honrosas homenagens. Ferreira Gullar nasceu em São Luiz em dezembro de 1930, e morreu no Rio de Janeiro, em dezembro de 2016.

Poemas como esse o imortalizaram..

Assinando Rodrigo Mello Rego

Poema Sujo

Ferreira Gullar

Turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia




                                       
Rodrigo Mello Rego
é jornalista
pesquisador de literatura erótica
com mestrado em Estudos Literários

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