Menu

domingo, 27 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Os riscos causados pela “voz rouca das ruas” – Rubens faz uma reflexão sobre o texto do jornalista Alvaro Nazareth

Leio sempre, com muito interesse, as judiciosas ponderações de Álvaro Nazareth publicadas em sua coluna Movimento no Portal Do Oleari.

Posso até, em certas circunstâncias, divergir de um ou outro ponto dispendido, mas nada capaz de invalidar para mim o pensamento lógico e racional por ele exposto.

A propósito de seu trabalho 

Alvaro Nazareth: Movimento – Governo Temer, a agonia de uma aventura que já deu

 http://nageral.donoleari.com.br/2017/07/alvaro-nazareth-movimento-governo-temer.html 

em que Álvaro Nazareth aborda aspectos da atual conjuntura da
politica brasileira, minha opinião sobre índices de popularidades, em alguns pontos conflita com as ideias do articulista. 

Entendo que a aferição do trabalho desenvolvido pelo Governo é importante ao final do seu mandato, tendo em visita a obra realizada no curso de sua administração, e não no quase sempre passionalismo e desconfiança que antecedem seu governo.

Principalmente quando eclodem nas várias esferasda sociedade o que se convencionou chamar de “a voz rouca das ruas”, uma expressão cunhada por Fernando Henrique Cardosoquase 
sempre aceita como legítimas reivindicações da maioria da população, sempre ávidas pela vinda de um messias salvador.

Foi assim, na Rússia dos tzares, com o massacre de uma dinastia que se perpetuava no poder. Lenine liderou
o movimento que nascia nas ruas e em nome dele implantou um novo regime que iria culminar no comunismo
e nos campos de confinamento nas áreas geladas da Sibéria.

A Queda da Bastilha partiu igualmente dos protestos populares. O rei e sua família foram assassinados e Maria Antonieta
se tornou um símbolo ao ser guilhotinada. O movimento que também ali nasceu nas ruas se transformou em dias de terror que só terminaram com o assassinato de suas ´principais lideranças, num deles,  Robespierre, por ironia guilhotinado.

A Alemanha é um exemplo mais próximo de nós e foi a partir de avaliação popular negativa sobre o governo que Hitler ascendeu
ao poder e, com ele, o nazismo. As consequências todos nós conhecemos.

Charles Chaplin: O Grande ditador


Nosso País tem sofrido longos períodos de pesadelos políticos, mas o que chama a atenção é que todos eles
eclodiram a partir de levantamentos populares, ocupando ruas e praças, sempre na busca de um “messias”
capaz de nos trazer as benesses de um governo sadio.

Foi assim com Getúlio Vargas, “o pai dos pobres”, cercado de amplo apoio popular e que culminou com pesados anos de ditadura civil.


João Goulart, vice, Jânio Quadros, presidente, e Juscelino passando o governo


Juscelino Kubitschek foi a exceção. 
Iniciou seu governo cercado de desconfiança e terminou sua administração sob
unânimes aplausos da população. 
Foi o julgamento do povo, ao final do seu mandato, que validou sua obra administrativa e política.

Mas a implacável roleta da História girou e mais uma vez foi a massa julgadora que aceitou e levou ao Poder o messiânico
Jânio Quadros com sua vassoura para varrer corruptos. 

O erro de julgamento popular se confirmou mais desta vez,
e as consequências foram dramáticas. Aplaudido antes, execrado, depois.
João Goulart, vice-presidente, assumiu ao Governo com a renuncia de Jânio Quadros. 

Em São Paulo, uma passeata de
cem mil mulheres, com apoio da Igreja Católica, julgou o novo presidente que mal iniciara sua gestão, pedindo sua
cabeça. Foram atendidas e tivemos a mais longa ditadura militar instalada no País.

José Sarney ascendeu ao Poder com a morte do candidato eleito. Milhões de brasileiros marcaram nas pesquisas a popularidade
que então ele desfrutava. 

Ao final e sua segunda gestão, com a incontrolada inflação que levou o País ao caos, os índices de aprovação
popular chegaram ao limite próximos do zero nas pesquisas ibopeanas de consultas à população.
Os exemplos se multiplicam e o caçador de marajás Fernando Collor de Melo, unanimemente plaudido ao iniciar seu mandato
foi caçado por falcatruas.Seus índices de popularidade elevadíssimos ao iniciar seu governo, foram detonados como
um nono rítmo na escala Ritcher que marca a intensidade dos terremotos.

É por coisas assim que acompanho à distância, com muita cautela, os movimentos populares.
de condenação aos governos instituídos antes de vencer seus mandatos e os índices de desaprovação mesmo antes da execução das metas a que se propuseram. 

Ou de decisões motivadas por interesses de poderosos grupos de empresas, nacionais ou não, com propósitos não necessariamente patrióticos…

Foi o que ocorreu com a presidente deposta Dilma Rousseff (não pelas falhas gritantes em uma política econômica mal sucedida) e que agora ameaça o presidente Michel Temmer –
muito mais e mais uma vez, por interesses ligados ao nosso selvagem capitalismo, quase medieval, do que a um programa de governo ainda apenas alinhavado.

Nosso livrinho mágico, a Constituição Brasileira, está perdido numa estante de livros inconvenientes.

Meus setenta anos de jornalismo me ensinaram a ser cético diante da “voz rouca das ruas”. Nesses últimos 50 anos ruíram por terra as principais lideranças colocadas por nós no que seria o pedestal da democracia.

Faltam-nos, muito mais do que políticos, estadistas para governar nosso difícil, amado e complicado País.
Desculpe-me pela insistência, mas Juscelino Kubitchek foi último deles (Rubens Pontes).



Rubens Pontes
jornalista,
radialista,
escritor
Diretor de Conteúdo
Portal Don Oleari/Rádio CBM

Comentários