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quinta, 23 de novembro de 2017

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – Manoel Maria du Bocage, Soneto do caralho potente

– Senhor editor-chefe

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois foi muito mais do que du Bocage. 

Mas foi com esse sobrenome que o maior poeta português do Século XVIII se projetou para a eternidade com sua poesia fescenina apontada, ainda neste cínico Século XXI, como eminentemente pornográfica.

É como se assim fosse rotulada, só como exemplo para não alongar muito, a obra poética de Carlos Drumond de Andrade, de Cora Coralina, do cronista e poeta gaúcho Luis Fernando Veríssimo.

Ainda na semana que passou, a bordo do ônibus que me transportava de Nova Viçosa/Ba para Vila Velha/ES,
reli sempre com a mesma paixão o poema “Prostituta”, da doceira de Goiás Velho:
“Mulher da vida, minha irmã
de todos os tempos,
de todos os povos
de todas as latitudes”

Drummond fez editar, post-mortem, uma obra com seus poemas eróticos que em nada denegriu sua memória como um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, e Luis Fernando, o herdeiro luminoso de Érico Veríssimo, poetou escrevendo

“Fazer amor é lindo, é encantador, é esplêndido.
Mas dar é bom pra cacete
Melhor que dar, só dar por dar,
Dar sem querer casar
(Ler in “Dar é dar”).

Quero ouvir uma crítica, aqui ou além-mar, de alguém com a cara na janela, a um poema de Fernando Pessoa cujo primeiro verso canta:

“Dia em que não gozaste não foi teu”.

Bocage foi muito mais do que aponta sua rotulagem como poeta pornográfico, embora os titulos em sonetos – entre muitas centenas escritos desde Setúbal, onde nasceu em 1765, até sua morte, em setembro de 1805 – possam (premeditadamente?) transmitir essa impressão:

– “Soneto do caralho potente”, “Soneto do Prazer Efhémero”, “Soneto do Pau Decifrado”, “Soneto da Cópula Esculpida”…

Mesmo sendo mais sutil, nosso Bandeira se projetava em “Pasárgada”, onde teriaa mulher sonhada na cama que escolheria…

Insisto na dúvida sobre o que é erótico e sobre o que é ponográfico. 

Alguém neste Brasil varonil taxaria o romântico Álvares de Azevedo – poeta dos saraus nas casas senhoriais das fazendas brasileiras – de poeta erótico? Mas ele não versejou dizendo

” Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida
com a febre nas faces e a lascívia nos lábios…” ?

Estátua de Bocage em Setubal, Portugal.

Para não me alongar muito sobre um tema no entanto para mim apaixonante, vamos meditar sobre o que escreveu o nosso Nélson Rodrigues:

– “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu.”

Para não me alongar muito sobre um tema no entanto para mim apaixonante, vamos meditar sobre o que escreveu o nosso Nélson Rodrigues:

– “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu.”

Com as saudações de
Rodrigo Mello Rego,
um clássico de Manoel Maria du Bocage, na grafia do seu tempo.

SONETO DO CARALHO POTENTE

Porripotente heroe, que uma cadeira
Sustens na poncta do caralho teso
Pondo-lhe em riba mais por contrapeso
A cappa de baetão da alcoviteira:

Teu casso é como o ramo da palmeira
Que mais se eleva, quando tem mais peso;
Si o não conservas açaimado e preso
É capaz de foder Lisboa inteira!

Que forças tens no horrido marsapo
Que assentado a dysforme cachamorra
Deixa connos e cus num trapo!

Quem ao ver-te o tesão ha não discorra
Que tu não podes ser sinão Priapo
Ou que tens um guindaste em ver de porra?

Rodrigo Mello Rego
é jornaista,
pesquisador de literatura erótica.
Tem Mestrado
em Estudos Literários
Não mostra a face 
“pra salvar a cara e
o emprego”, diz.

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