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quinta, 23 de novembro de 2017

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – Bernardo Guimarães – “A origem do mênstruo” e o “Elixir do Pagé”

Pitaco do Oleari

Rodrigo Mello Rego tá despertando as atenções de intelectuais de peso da cena cultural do Espírito Santo. 


Foi uma agradável surpresa receber do professor e teatrólogo Wilson Coelho – apenas alguns dos seus títulos – um bilhetimeil, logo depois de ter postado um dos poemas de Bocage, seguido da sempre brilhante análise de Mello Rego.

Veja nesse linki aí: http://nageral.donoleari.com.br/2017/08/rodrigo-mello-rego-as-certinhas-do.html – Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – Manoel Maria du Bocage, Soneto do Caralho Potente.

Dizia Wilson Coelho:
– Bom dia, Oleari, conhece esse poema de Bernardo Guimarães, “A origem do mênstruo”? 

E me passou o poema na íntegra. Li o poema inteiro e matutei: vou repassá-lo com o bilhetimeil do Wilson para o nosso especialista em literatura erótica, Rodrigo Mello Rego. O que fiz sem piscar, na expectativa de algum retorno.

O jornalista respondeu quase que imediatamente. Acompanhem aí suas apreciações. Só que Mello Rego acrescentou outro famoso poema de Bernardo Guimarães, “Elixir do Pajé”. 

Portanto, quem é de ler, tem aí uma dose dupla de Bernardo Guimarães. Em tempo: a grafia de “pajé” correta é com “j”. Na capa do livro “O Elixir…” pajé aparece grafado com “g”. (O.Oleari).

– Don Oleari:

Desde Machado de Assis – o criador do romance brasileiro –  até Guimarães Rosa – seu renovador, enumeram-se às centenas os escritores brasileiros que obtiveram sucesso com seus livros.

Nenhum deles, no entanto, chega sequer perto da fantástica tiragem da principal obra do autor mineiro Bernardo Guimarães, nascido em Ouro Preto no ano de 1825: “A  Escrava Isaura”, com 300 mil exemplares.

Novela de televisão estrelada por Lucélia Santos e Rubens De Falco (foto à esquerda), obteve a incrível audiência de 1 milhão de telespectadores, tornando-se com isso um absoluto recorde literário, só comparado aos best-sellers editados por autores de língua inglesa. 

João Alphonsus, outro consagrado autor mineiro, assinalou que “nenhum escritor de sua época foi mais admirado, lido e conhecido.”

Um escritor visto como autor da família foi também assim aplaudido por telespectadores de mais de 150 países. 
Só na China a novela, com 100 capítulos, foi acompanhada por 870 milhões de pessoas.

A par de sua atividade  no campo da literatura, advogado pela Universidade de São Paulo, destacou-se como jornalista e professor de Latim, Francês, Retórica e Poética.

As portas das vetustas casas senhoriais de Minas Gerais sempre estiveram abertas para receber, até em saraus familiares, a obra de Bernardo Guimarães.

Estes apontamentos vêm a propósito de uma observação do colaborador do Portal Don Oleari, o teatrólogo, escritor, poeta, tradutor Wilson Coelho, indicando um poema escrito por Bernardo Guimarães, que, para resguardar a imagem como “autor da família”, foi publicado clandestinamente em 1875.

Faço aqui um parênteses para louvar a postura  do Portal Don Oleari, colocando-se sempre como ponto de equilíbrio, sem jamais aplicar censura, aceitando posições de estudiosos do assunto, entre os quais modestamente me incluo, com isenção e independência.

Onde mais poderíamos publicar os dois mais famosos poemas de Bernardo Guimarães, senão aqui? Taxados como obscenos, “A origem do mênstruo” e o “Elixir do Pajé” não inarredáveis criações da obra literária do autor mineiro.

Pornografia? o julgamento será sempre de quem os ler. Somente de quem os ler.

Com a palavra, assim pois,  o leitor.
Rodrigo Mello Rego”.

Nota: agradeço especialmente ao Editor Oleari ter me passado a sugestão do colega Wilson Coelho, ele também um profundo conhecedor da literatura brasileira (Rodrigo Mello Rego).

“A origem do mênstruo”

Bernardo Guimarães

De uma fábula de Ovídio achada nas escavações de Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.

Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes…

Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas idéias:
– ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.

Mas a navalha tinham o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava…

Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau…

Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia…

(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)

– “Ora porra!” – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta…
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.

A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira…

– “Estou perdida!” – trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia…

Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:

“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?

Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias…
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício…
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?

Ó Adonis! Ó Jupiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!

Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo,

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões…

Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!”

Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante…

Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu…

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina

Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta
das setas as fustiga.

Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia…

No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga…

Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou…
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou…

Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – “Bem-feito”!

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!

Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:

– “Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.

Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo…

Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica…

E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver…”

Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram…

Busto de Bernardo Guimarães, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, 
Minas Gerais.

O Elixir do pajé

Bernardo Guimarães

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?

Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!

Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?

                 Qual hidra furiosa, o colo alçando,
                 co’a sanguinosa crista açoita os mares,
                 e sustos derramando
                 por terras e por mares,
                 aqui e além atira mortais botes,
                 dando co’a cauda horríveis piparotes,
                 assim tu, ó caralho,
                 erguendo o teu vermelho cabeçalho,
                 faminto e arquejante,
                 dando em vão rabanadas pelo espaço,
                 pedias um cabaço!

Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.

                 Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
                 Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
                 Acaso pra teu tormento,
                 indefluxou-te algum esquentamento?
                 Ou em pívias estéreis te cansaste,
                 ficando reduzido a inútil traste?
                 Porventura do tempo a dextra irada
                 quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
                 e assim deixou-te pálido e pendente,
                 olhando para o solo,
                 bem como inútil lâmpada apagada
                 entre duas colunas pendurada?


Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
linguiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.

Porém não é tempo ainda de 
esmorecer, pois que teu mal ainda pode alívio ter.

Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co’engenho e arte.

                 Eis um santo elixir miraculoso
                 que vem de longes terras,
                 transpondo montes, serras,
                 e a mim chegou por modo misterioso.

Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co’os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!

                 E ao som das inúbias,
                 ao som do boré,
                 na taba ou na brenha,
                 deitado ou de pé,
                 no macho ou na fêmea
                 de noite ou de dia,
                 fodendo se via
                 o velho pajé!

Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: “Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré”,
— assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co’o pé:
— Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com mais gentileza?”

                 E ao som das inúbias,
                 ao som do boré,
                 na taba ou na brenha,
                 deitado ou de pé,
                 no macho ou na fêmea,
                 fodia o pajé.

Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!
Vassoura terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou…
Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

        Vinde, ó putas e donzelas,
        vinde abrir as vossas pernas
        ao meu tremendo marzapo,
        que a todas, feias ou belas,
        com caralhadas eternas
        porei as cricas em trapo…
        Graças ao santo elixir
        que herdei do pajé bandalho,
        vai hoje ficar em pé
        o meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor…

Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão…
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço…

Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!
Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado,
vencedor de cem mil conos…
E seja em todas as rodas,
d’hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito rei dos caralhos!


Rodrigo Mello Rego

jornalista
crítico literário
pesquisador de literatura erótica
Mestrado em 
Estudos Literários

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