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sbado, 18 de novembro de 2017

Grupo Z de Teatro estreia espetáculo sobre encarceramento feminino

Por Patricia Galleto

No ano em que a companhia completa 20 anos de atuação,“A Fuga” surge da primeira dramaturgia escrita pela atriz Alexsandra Bertoli e marca a primeira vez que o grupo encena um texto escrito por uma mulher.

Após passar por uma experiência de ensaio aberto no início de agosto, “A Fuga”, o mais recente espetáculo do Grupo Z de Teatro, estreia dia 2 de setembro às 19 horas na Má Companhia, Centro de Vitória/ES, e permanece em temporada aos sábados e domingos de setembro  na casa sede dos grupos Z e Repertório Artes Cênicas e Cia. 

Em cena, Carla van den Bergen e Alexsandra Bertoli dão vida a duas mulheres encarceradas que planejam uma fuga. A peça, dirigida por Fernando Marques, também marca a estreia de Alexsandra como dramaturga, assim como a primeira vez que o grupo monta um espetáculo escrito por uma mulher nos seus 20 anos de formação, completados este ano.

Ao falar das personagens Ana e Mirela, “A Fuga” traz o universo do presídio feminino, ao mesmo tempo em que se aproxima de tantas outras mulheres fora das celas ao indicar outras camadas de significados. Na peça, escrita como ficção, é proposto um mergulho na trajetória dessas duas mulheres encarceradas que fazem dupla no revezamento para a escavação de um túnel, sem deixar de apontar para um sistema prisional que é falido, desumano e machista desde sua origem.

A ideia de escrever o texto surgiu em um núcleo de dramaturgia coordenado por Fernando Marques, do qual Alexsandra participou.

– “Há tempos tenho uma urgência em desenvolver algum tipo de trabalho dentro do presídio feminino – o que ainda não consegui concretizar. Provavelmente, esse interesse tem origem nas minhas experiências pessoais como visitadora de presídio masculino durante muitos anos, como uma observadora e ouvinte daquelas mulheres que dividiam comigo aquela fila, sabendo que muitas já tinham sido presas por causa de cônjuge”, destaca Alexsandra.

Outro aspecto que mobilizou o grupo para a montagem de “A Fuga” diz respeito à ausência de uma estrutura física e psicológica que atenda às necessidades das mulheres que estão em situação de cárcere.

– “Em muitos presídios femininos, uma série de direitos lhes são negados – desde a privada que não serve à sua anatomia até o filho recém-nascido que é arrancado da mãe antes de findado o período de amamentação”, ressalta Alexsandra. Nesse sentido, a frase de Heidi Ann Cerneka, presente no livro “Presos que Menstruam”, de Nana Queiroz, foi um dos estímulos no processo de montagem do espetáculo:

–  “Para o Estado e a sociedade, parece que existem somente 440 mil homens e nenhuma mulher nas prisões do país. Só que, uma vez por mês, aproximadamente 28 mil desses presos menstruam”.

Os encontros para a montagem da peça, desde o início, contam, ainda, com a participação de seis mulheres com vivências no campo das Artes Cênicas. Elas observam, opinam, intervêm no processo, debatem com o grupo e produzem relatos publicados regularmente no blog do espetáculo. Mais informações podem ser conferidas no link https://afugagrupoz.wordpress.com/ e na página da peça no Facebook.


Oficina aberta ao público

Durante a temporada, o grupo oferecerá a oficina “Atuação, Processo e Registro” gratuitamente nos dias 23 e 24 de setembro. 
A proposta é compartilhar parte do processo de montagem de “A Fuga”, que inclui produção de textos em formato livre. Segundo Fernando Marques, serão trabalhados o uso de fontes documentais como estímulo à criação, em um primeiro momento, e a elaboração de protocolos sobre a experiência, como forma de pensar sobre o próprio trabalho, posteriormente.

– “Pretende-se não apenas que os participantes desenvolvam o seu trabalho como atores criadores, mas sobretudo a capacidade de pensar, compreender e avaliar seu processo de criação”, diz. As vagas são limitadas e a abertura de inscrições será divulgada na página do espetáculo no Facebook.

20 anos de Grupo Z

Em 2017, o Grupo Z de Teatro comemora 20 anos de atuação, desde que estreou a primeira peça: “O Maior Espetáculo da Terra”. Sediado em Vitória, o Grupo Z privilegia, além da montagem de espetáculos, a pesquisa de linguagens que dão forma à sua identidade. Dentro dessa proposta, três linhas têm marcado sua trajetória: o trabalho em espaços diversos; o corpo do ator; o desenvolvimento de dramaturgia própria.

SERVIÇO – TEATRO
“A Fuga” (Grupo Z de Teatro)
Temporada de estreia
De 2 de setembro a 1º de outubro
Sábados e Domingos – sempre às 19 horas
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Má Companhia – Rua Professor Baltazar, 152, Centro, Vitória/ES (próximo à Catedral Metroplitana de Vitória)

Sinopse: Duas mulheres encarceradas participam de um plano de fuga coletiva de um presídio. Ana e Mirela são companheiras de cela e dividem também o turno na escavação do túnel que, elas esperam, as conduzirá à liberdade, ao mundão. Cavam juntas o túnel e vão escavando memórias, sensações, medos, paixões, arrependimentos, orgulhos, pequenas alegrias, esperanças. Medos. Ana e Mirela escavam a si mesmas na tentativa de construir caminhos para sua reconstrução.

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