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quinta, 23 de novembro de 2017

Rodrigo Mello Rego / As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – Dar não é fazer amor, Luiz Fernando Verissimo




– Senhor editor:
Pelo menos a  coluna tem sido lida por algumas pessoas, segundo manifestações – nem sempre amigáveis – que me têm sido endereçadas.

Ainda  na semana que passou, parente afastada, moradora em Baixo Guandu/ES, acusou-me de conspurcar o bom nome dos Rego disseminando literatura pornográfica e ainda  pergunta por que essa disseminação tem obtido guarida por um Portal respeitável como o Portal Don Oleari.

Peço-lhe permissão, senhor editor-chefe, para publicar trecho da correspondência enviada em  resposta.

– “Caríssima Margarida (nome fictício)

Você está confundindo pornografia com erotismo. Essa última manifestação tem sido registrada até no Velho Testamento, livro do qual você se confessa assídua leitora.  Você pode até pulado o episódio que narra a passagem de Sara e Abrão na Terra de Canaãn, mas ele é clássico:

– “Sobre as peles de carneiro que lhes serviam de leito, no espaço exíguo da tenda, Sarai exibia sua esplêndida nudez aos olhos do marido, abrindo o corpo como um fruto suculento ao toque dos seus dedos”.

No Velho Testamento, não se encontrou pudor ao falar sobre prostituição, vista com naturalidade no Êxodo (34.16) em Números (25.1) e em Deuteronômio (13.18), onde é abordada a prostituição masculina, chamada de sodomia.

Erotismo está presente no Livro Sagrado, algumas vezes como forte componente, mas às vezes até com registros inacreditavelmente escandalosos.

Nem por isso o conjunto das obras do Antigo e do Novo Testamento deixam de ser a leitura mais procurada e mais difundida em todos os Continentes. Sem nenhuma contestação. 

Voltando aos nossos dias, sei, parenta e amiga, de sua especial predileção pelos nossos cronistas maiores, o capixaba Rubem Braga (à direita), o gaúcho Luiz Fernando Veríssimo (acima, à esquerda), e o mineiro Fernando Sabino (à esquerda). 

Todos são amenos, espirituosos, bem humorados, escrevendo coisas do nosso cotidiano que fazem bem à nossa alma e ao nosso coração. 

Você apontaria algum deles como pornográfico? 

Sabendo de antemão sua resposta, mostro-lhe, no entanto, que há também forte dose de erotismo em muitas coisas do que escreveram.

Não pretendo provocá-la, que eu a estimo muito para isso, mas o que você pode me dizer sobre o poema “Dar  não  é fazer amor”, do maior autor gaúcho desde seu pai, o imortal Érico Veríssimo e seu lírico “Olhai os Lírios do Campo”?

Muito obrigado por nos acolher no Portal Don Oleari. Rodrigo Mello Rego”.


Dar não é fazer amor

Dar é dar.
Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido.
Mas dar é bom pra cacete..
Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca…
Te chama de nomes que eu não escreveria…
Não te vira com delicadeza…
Não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom.
Melhor do que dar, só dar por dar.
Dar sem querer casar….
Sem querer apresentar pra mãe…
Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo.
Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral…
Te amolece o gingado…
Te molha o instinto.
Dar porque a vida é estressante e dar relaxa.
Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou
depois de amanhã.
Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito.
Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem
esperar ouvir futuro.
Dar é bom, na hora.
Durante um mês.
Para os mais desavisados, talvez anos.

Mas dar é dar demais e ficar vazio.
Dar é não ganhar.
É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro.
É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece
querer te
abduzir.
É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar
o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar:
‘Que que cê acha amor?’.
É não ter companhia garantida para viajar.
É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia.
Dar é não querer dormir encaixadinho…
É não ter alguém para ouvir seus dengos…
Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito.

Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance
ao amor.
Esse sim é o maior tesão.
Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz
você flutuar

Experimente ser amado…
(Luís Fernando Veríssimo)




Rodrigo Mello Rego
jornalista,
Mestrado em Estudos Literários,
perquisador de literatura erótica

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