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quinta, 23 de novembro de 2017

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Cecília Meirelles: Elegia a uma pequena borboleta

– Eclético Oswaldo Oleare

Com algum pudor, mas ainda assim lhe conto uma “coincidência” instigante que ocorreu comigo
esta manhã aqui, em Manguinhos.

Levantara-me mal humorado, noite mal-dormida, com uma insistente tosse seca, tomei um cafezinho,

retirei um livro na estante, e me sentei numa cadeira na varanda voltada para o pequeno
páteo onde Márcia cultiva suas flores. Notei o antúrio (foto) e pressenti, na flor que se abria,

a Primavera anunciando seus primeiros e tímidos passos até que seus braços se abrissem para nos afagar

a partir do dia 21.

Leve e azul, uma borboleta pousou com doçura sobre a flor.

A estranha associação: o livro que escolhera por impulso era um volume de poemas

de Cecília Meirelles e, ao abrí-lo, como um fruto maduro caindo no colo, a Canção Mínima”:

No mistério do sem-fim,
equilibra-se um planeta.
E no planeta, um jardim
e no jardim um canteiro;
no canteiro uma violeta
e, sobre ela, o dia inteiro
entre o planeta e o sem fim,
a asa de uma borboleta.
Setembro marca a entrada da Primavera, como todo mundo sabe e espera, a estação das

flores, das amenidades do tempo, dos sorrisos e das alegres canções com que a Rádio Clube da Boa Música

nos fazem despedir do Inverno que nem deveria ocorrer nos países tropicais.

De 21 deste mês, até 21 de dezembro, o dia vai paulatinamente aumentando e a noite diminuindo

(para desespero dos franceses e alegria dos ingleses… no tempo deles).

O fato é que em muitas áreas geográficas deste Mundo, no passado remoto ou nos dias em que vivemos, a Primavera está

intimamente associada à presença da borboleta.

Para os gregos, Psyché significa ao mesmo tempo alma e borboleta, a mesma alma

que na cultura egípcia deixava em forma de borboleta o corpo que morria.

Na civilização azteca, a borboleta era o sopro vital expelida pela boca do morto,

também associada a uma divindade – ltzpapaloti – o cruzamento de uma mulher com uma borboleta,

um simbolismo relacionado com a metamorfose que metaforicamente expressa a saída do túmulo (o casulo)

para o renascimento. Essa passagem do mundo dos mortos para o dos vivos é também utilizada na cultura oriental.

Se no Japão a borboleta é um emblema da mulher, a felicidade matrimonial é representada por duas borboletas

E a psicanalise moderna vê na borboleta um símbolo de renascimento.

Cecília Meirelles, como numa cantiga de roda, brincou com “As borboletas”:

Brancas
Azuis
Amarelas
Pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Borboletas brancas
Gostam muito de luz

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então…
Oh, que escuridão!

A noite mal-dormida se desfez na memória como na visão deslumbrada de um milagre.
Cecília Benevides de Carvalho Meirelles demonstrou, uma vez mais, que coincidências não há
e não foi assim sem mais nem menos que o antulho floriu e sobre ele pousou com leveza uma
borboleta azul.

Este Portal e a Radio Clube da Boa Música, muito a propósito, nesta ante-sala da Primavera,
auguram aos seus leitores e ouvintes o que reza antiga bênção irlandesa:

– “Que as asas de uma borboleta beijem o sol e pousem em teu ombro a te iluminar e a te trazer sorte, felicidade
e abundância. Hoje, amanhã e sempre.”

ELEGIA A UMA PEQUENA BORBOLETA, de Cecília Meirelles, foi, por tudo isso e até além disso,
escolhido meu poema para este sábado.

Elegia a uma pequena borboleta

Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!


Rubens Pontes
é

Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo:
https://rubenspontes.com.br/ –

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