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quinta, 23 de novembro de 2017

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Casamento, de Adélia Prado – Leia e ouça o poema pela autora



Creio que foi o poeta Oswaldo Soares da Cunha quem me convenceu a ir ao Teatro do Sesi em Belo Horizonte,

naquela noite de 1966, para assistir a peça teatral “Duas Horas da Tarde no Brasil”.

A autora, Adélia Prado, uma poeta que despertara o entusiasmo de

Carlos Drummond de Andrade ao
ler seus versos, enviados a ele por
Afonso Romano Santana, então crítico literário do Jornal do Brasil, e que incentivara a edição de seu primeiro livro pela Editora Imago, em 1976.

Não parei mais de ler a obra de um dos expoentes mais cultuados da literatura brasileira.

Professora durante 24 anos na cidade mineira de Divinópolis,onde nascera no dia 13 dezembro de 1935,

filosofa e contista, Adélia Prado, sob certos aspectos de sua vida na cidade provinciana de Minas Gerais,

faz lembrar Cora Coralina, a doceira goiana armando cozinha, indo à missa dominical, convivendo com seus vizinhos
com cheiro de mato, a gente de lá, dizendo que o cotidiano é a própria condição da literatura.

Em uma e em outra, em sua prosa e em seus versos, são recorrentes as coisas de sua gente e de sua terra.

– “Moça feita – confessou a poeta – li Drumond, a primeira vez em prosa. Muitos anos mais
tarde, Guimarães Rosa, Clarisse Lispector. Essa é minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto.”

Seu ingresso “na turma” foi uma consequência natural do seu talento e de sua criatividade
literária.

Ao lançamento do seu primeiro em 1976 livro a “turma” estava presente:
Carlos Drummond de Andrade, Afonso Romano de Santana (com Adélia na foto), ambos no Jornal do Brasil,
Clarice Lispector, Nélida Pinon, e o grande estimulador de
talentos Juscelino Kubitschek.

A escolha do poema de Adélia Prado, para leitura neste sábado, também ele, nos remete a Goiás Velho e a Cora Coralina,
e aí fico matutando – quem sabe a nossa Rádio Clube da Boa Música faça dele uma adaptação,

sei lá, criando um fundo musical para acompanhar a leitura dos sensíveis versos da extraordinária
poeta mineira? O Portal Don Oleari certamente se manifestará solidário..

Casamento

Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Rubens Pontes
jornalista
radialista
poeta
escritor

Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo:
https://rubenspontes.com.br




O poema escolhido pro Rubens Pontes na voz da poeta Adélia Prado.

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