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quarta, 13 de dezembro de 2017

Alvaro Nazareth: Movimento / Criança, sim.

setembro 29, 2017




Mas, assim também não.





Continuando a sequência de textos numerológicos, chegamos ao tão divulgado programa Criança Esperança, da Rede Globo, realizado há 32 anos. 

É fantástico. 

Não, não, Fantástico é outro programa da mesma emissora. O Criança Esperança é aquele que promete muito e entrega quase nada. Tanto que o público infantil desamparado no Brasil aumentou drasticamente nesse período.

O programa nasceu em 1985 por iniciativa de Renato Aragão, com o nome SOS Nordeste. O objetivo era angariar doações para socorrer os cearenses, conterrâneos do trapalhão Didi, vítimas de uma seca brutal. No ano seguinte, já com o nome atual, a TV Globo o incorporou à sua grade de programação.

Atualmente, há mais ou menos oito milhões de crianças abandonadas, das quais, dois milhões estão nas ruas. E 16 milhões representam o contingente de menores em estado absoluto de carência, inclusive as oito milhões citadas anteriormente.

O Criança Esperança arrecadou R$ 22 milhões em 2015, R$ 16,3 milhões em 2016 e fechou em R$ 20.1 mi neste ano: média de R$ 19.46 milhões, em queda de 13% em relação ao maior valor.

De frente para a realidade, esses R$ 20.1 milhões divididos por 24 milhões de crianças necessitadas de amparo no País, dão resultado per capita de R$ 0,84 por criança. Isto mesmo: 84 centavos para cuidar de uma criança durante um ano.

Menos de um real

São da própria Globo informações de que nesses 32 anos a promoção arrecadou em torno de R$ 300 milhões, beneficiando quatro milhões de crianças através de investimentos em alguns projetos assistenciais. Dividindo-se a arrecadação e o número de beneficiados por 32 constata-se que a cada uma dessas crianças, por ano, coube um investimento de R$ 75,00. Ou, R$ 6,25 por mês. Ou, R$ 0,21 por dia.

Convenhamos, um escárnio. Mais um escárnio, entre todos que o brasileiro tem se sujeitado ao longo de sua vida. Principalmente pelo triunfalismo com que os resultados são apresentados. Como se fosse algo sensacional, como diria Louro José.

O programa é válido, ao denunciar indiretamente as violentas desigualdades sociais inaceitáveis por uma sociedade que se queira respeitável. Só que não é isso que ele faz: afinal, apenas propala a arrecadação de quantias que, individualizadamente, não resolverão absolutamente nada.

Torna-se lamentável, revoltante até, a consideração de que um valor menor que o de um pirulito trará felicidade para uma criança.

Que dirá, perspectiva de vida.



Economista, Jornalista e Publicitário. Trabalhou no jornal O Diário, Rádio Espírito Santo, Revista Agora, Jornal da Cidade, A Gazeta e A Tribuna. Fundou a Uniarte Agência de Propaganda e dirigiu comercialmente a Eldorado Publicidade, a Rede Tribuna e o jornal eletrônico Século Diário. Foi Secretário de Comunicação da Prefeitura de Vila Velha e do Governo do Estado do Espírito Santo.

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