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segunda, 28 de setembro de 2020

Kleber Galvêas: Primavera importada



Valendo grana, se Silvio Santos me perguntar qual é a estação das flores e der quatro opções: primavera, verão, outono e inverno; eu respondo “primavera” para ganhar, mas sem acreditar. 


Quando tinha 6 anos, aluno do jardim da infância em São Mateus, ES, respondi “outono” à mestra que festejava a chegada da primavera com cartazes floridos. 

A reprovação foi total, da tia ao colega desligado: contrariei a cartilha. Como estávamos na primavera, pedi que olhassem pela janela as poucas árvores floridas. Entre elas se destacavam ipês amarelos e manacás. A mata parecia um tapete verde-louro com poucos pontos coloridos. 

No fim de semana anterior, havia subido o rio Cricaré pela segunda vez com a família, quando ouvi minha mãe dizer:                                                                                                                                            
Ameixeiras, flores na primavera, frutos no verão


– “Isso aqui estava mais florido na semana santa, no outono”. Todos no barco concordaram. Eu protestei: havia estudado na véspera e sabia de cor o “ponto” das estações do ano. As ilustrações da cartilha estavam nítidas na minha memória: flores na primavera, frutos no outono.

Meu pai me explicou que também aprendera assim, mas que eu devia ficar atento ao nosso ambiente, fazendo minhas próprias observações. Pediu que prestasse atenção para comparar essa observação na primavera, com a que faríamos depois do verão, no outono, na semana santa. 

Ele era médico, professor de inglês e matemática, ajudou a fundar o primeiro ginásio de São Mateus/ES, tinha prestígio na cidade. No dia seguinte levei-o a minha escola, onde falou de observação, de anamnese na medicina e da importância desses procedimentos em qualquer investigação. 
Sugeriu que pesquisássemos, observando e desenhando nossas impressões das 4 estações. A professora ouviu e gostou. 

No ano seguinte 1954, mudamos para Vila Velha e continuei observando: mata do convento, restinga, mangue e, nas viagens, o campo. 
Acredito que se há mais flores nativas numa estação, aqui é no outono que isso ocorre. Nosso outono corresponde à primavera do hemisfério norte.Setembro, 22, TVs saúdam a primavera com flores e fazem vinhetas. Agências de publicidade sugerem flores para ilustrar campanhas. Artistas realizam exposições temáticas. Poetas e cantores alegram a festa das flores. Vitrines, publicações, decorações, por toda parte as flores aparecem colocadas pelo homem. A natureza continua discreta apesar das provocações.

Vejo nisso expressão do instinto de imitação que nos assola, desinteresse por nós mesmos e pelo nosso ambiente.

A ideia de que há mais flores na primavera tropical ocorre por conta das escolas que só reproduzem conhecimentos, da publicidade, decorações e atos de fé. Aceitamos essa informação sem nos darmos o trabalho de olhar pela janela. Perdemos a curiosidade, estamos prontos para acreditar.O amor à natureza, como qualquer outro, principia com atenção e conhecimento. Aprofundar esse sentimento é compreender, aplicar, analisar, sintetizar e avaliar o objeto do nosso interesse.


Destacar flores na primavera capixaba é empobrecedor, falso, equivale à exótica neve no natal. Adotá-las como símbolo da primavera tropical é ridículo; no mínimo, é imitação. Atentos ao mundo à nossa volta, notamos diferenças, aprendemos a usufruir e representá-lo, compondo nossa identidade e adquirindo segurança.Aqui, há flores e frutos o ano todo.

Ecologia: a raiz da palavra é grega, “oikos” e significa morada. Quem não conhece sua morada contribui pouco, recebe menos, não sabe se apresentar: dizer de onde veio, quem é e o que quer.

Kleber Galvêas

é artista plástico
e agitador cultural


www.galveas.comVeja exposição “Octógonos Floridos”
Ateliê Kleber Galvêas
http://www.galveas.com/expooctogonosfloridos.htm

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