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quinta, 23 de novembro de 2017

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Ele deixou cair no cinzeiro o cigarro que se apagara. Lygia Fagundes Telles

Rubens Pontes –
de Capim Branco, Minas Gerais


Confesso-lhe, eventual leitor desta coluna, minha frustração por não ter podido ainda aplaudir um nome brasileiro

como portador do Prêmio Nobel de Literatura, um autor de País onde brilharam e continuam brilhando

dezenas de autores, entre eles nomes que me ocorrem 
como Clarice Lispector,
aleatoriamente, 

Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Euclides da Cunha, Érico Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar e

para alguns, não eu, Paulo Coelho. Propositadamente, deixei fora da relação Machado de Assis e Guimarães Rosa,

autores que se situam no plano e até acima dos nomes de outros sul-americanos galardoados com o Nobel , Gabriela Mistral,

Miguel Astúrias, Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marques, Octavio Paz, Mario Vargas Llosa.

Lygia Fagundes Telles foi o único nome brasileiro indicado para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2016, aos 92 anos de idade,

a unanimidade dos membros da União Brasileira de Escritores fez a indicação dessa paulista nascida em 1923,

abalizada pelas conquistas da escritora e poeta: o Prêmio Jabuti em 1974, 1996, e 2001,

o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros na França com seu livro de contos “Antes do Baile”

e a conquista, em 2005, do “Prêmio Camões”, o mais importante da língua portuguesa.

Lygia Fagundes Telles com Carlos Drummond de Andrade.

Suas obras foram publicadas em vários países, traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco e tcheco

(Abro um parênteses. para lembrar que o nome de Ariano Suassuna foi indicado “Candidato Oficial
do Senado” ao Prêmio Nobel de Literatura, mas ficou nisso).

“Queria mostrar que a mulher, no Brasil, não precisava ser rainha do lar. Queria dizer que ela pode segurar a tocha da coragem e do desejo

de mostrar a igualdade entre homens e mulheres”, escreveu ela numa época em que partidos políticos (?) ainda não exploravam na

tevê esse apelo ao eleitorado feminino…

Para este sábado, minha sugestão para leitura no nosso Portal Don Oleari, ao som da programação da Rádio Clube da Boa Música, 

é um texto-poema de Lygia Fagundes Telles.

Ele deixou cair no cinzeiro 
o cigarro que se apagara.

– Uma vez, quando era menor ainda do que você, brincava com um espelhinho à beira de um poço da minha casa, eu morava numa fazenda meio selvagem. O poço estava seco e era bonito o reflexo do espelhinho correndo como se fosse uma lanterna pela parede escura, sabe como é, não?

Mas de repente o espelho caiu e se espatifou lá no fundo.

Fiquei desesperado, tinha vontade de me atirar lá dentro para buscar os cacos do meu espelho. Então alguém – acho que foi meu pai – levou-me pela mão e me consolou dizendo que não adiantava mais nada porque mesmo que eu juntasse, um por um, os cacos todos, nunca mais o espelho seria como antes. 

Sabe, Virgínia, vejo Laura como aquele espelho despedaçado: a gente pode ir lá no fundo e colar os cacos, mas tudo então o que ele vier a refletir, o céu, as árvores, as pessoas, tudo, tudo estará como ele próprio, partido em mil pedaços.

Veja bem, triste não é o que possa vir a acontecer…a morte, por exemplo. Triste é o que está acontecendo neste instante. Ela tem a cabeça doente, o coração doente…E não há remédio. Só o sopro lá dentro é que continua perfeito como o espelho, antes de cair no chão.

Lygia Fagundes Telles.



Rubens Pontes
é jornalista, 
poeta, 
escritor, 

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo:https://rubenspontes.com.br


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