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quinta, 23 de novembro de 2017

Rodrigo Mello Rego – As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica / Amor – Pois que é Palavra Essencial, de Carlos Drummond de Andrade

– Senhor Editor Chefão do Portal Don Oleari
Confesso sentir pejo em escrever sobre Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileiro e um dos mais importantes vates de todo o Mundo. 

Sinto-me muito pequeno para isso, mas minha grande admiração pelo mineiro de Itabira me leva  à transcrição da orelha de sua obra póstuma “O amor natural”, depois de ter visto o documentário sobre seus poemas eróticos produzido na Holanda, em 1966, tendo no elenco Joana Fomm e Sérgio Viotti.

Abro assim espaço para o texto que mostra a importantíssima incursão de Carlos Drummond de Andrade nessa área da criação poética um  poema dessa coletânea. Vale a leitura até como fator aglutinador de cultura.

E muito obrigado também à Rádio Clube da Boa Música, de cuja programação não abro mão, quero dizer, ouvidos, pelo prestígio a mim conferido, agradecido com a manutenção desta discutida coluna, sem censura, conforme ajustado desde o princípio.
Rodrigo Mello Rego”.


Amor – Pois que é Palavra Essencial

comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro de vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.


Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, quais estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade, 
in ‘O Amor Natural’



Rodrigo Mello Rego
é jornalista
Pesquisador de Literatura Erótica
Mestrado em Estudos Literários

Leitura do poema Amor – pois que é palavra essencial, pelo ator Sérgio Viotti, para o filme O amor natural

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