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quinta, 23 de novembro de 2017

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Lisboa com suas casas, Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

O mês de novembro foi marcado por um trágico episódio que assolou a capital portuguesa
e, por via indireta, levou ao primeiro passo para tornar a até então colônia do Brasil um Império
e, mais tarde, na República dos nossos dias..

Foi na manhã do dia 1º de novembro de 1755 – Dia de Todos os Santos – quando as famílias se preparavam para a Missa comemorativa da data que Lisboa começou de repente a tremer.

Em instantes, violentíssimo terremoto, seguido de maremoto e de um incêndio, arrasou a cidade.
Mais de 10 mil edifícios, a Biblioteca Real, o Palácio da Ópera, 35 igrejas, 55 palácios, tudo foi transformado num montão de escombros e cinzas em pouquíssimo espaço de tempo.

No dia 27 do mesmo mês, poucas semanas passadas, a Família Real embarcou para o Brasil e se instalou na cidade do Rio de Janeiro dando à Colônia foros de Império. Curiosamente, entre nós, o mês de novembro é igualmente marcante, felizmente apenas por sua
implicação política, com a proclamação da República, comemorada no dia 15.

Novembro, em Portugal é o mês de São Martinho e… da Castanha. Festividades culturais
são realizadas em todo o País, invariavelmente com a participação de artistas brasileiros.
Este ano estão incluídos na programação “Carminho Canta Tom Jobim”, em Lisboa, Gal Costa em Lisboa e no Porto, o pianista Cristelo no Casino Estoril, e Larissa Lima.

Para este colunista, a doce inclusão da castanha evoca uma de suas iguarias preferidas,
o marrom glacé, hoje presente apenas na memória que o passar implacável do tempo vai tornando cada vez mais distante…

O novo e, modéstia às favas, revolucionário Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música
e este escriba rendem neste mês de novembro tão marcante em nossa História,
nossas melhores homenagens a Portugal, aos portugueses que vivem no além mar
e aos que, emigrando para o Espírito Santo, ajudaram a construir o nosso moderno Estado,
elegendo, para leitura neste sábado, um poema do seu cultuado poeta Fernando Pessoa,
um dos mais destacados nomes da cultura lusitana e mundial.

Adília Lopes, in Poemas Novos, 2006

Lisboa com suas casas

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.
Se, de noite, deitado mas desperto,

Na lucidez inútil de não poder dormir,

Quero imaginar qualquer coisa

E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.

À força de monótono, é diferente.

E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo, Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), in Poesias de Álvaro de Campos, 1934

Rubens Pontes 

é jornalista, radialista,

poeta, escritor

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo:https://rubenspontes.com.br

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