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tera, 12 de dezembro de 2017

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus

 

“Escritora, lavradora, catadora de papel, sambista, poetisa, dramaturga, cantora, atriz de cinema, raizeira”.

É assim que define a figura de Carolina Maria de Jesus a historiadora Elena Farajo em defesa de tese

no Departamento de História da Faculdade de Filosofia , Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Filha de pais negros e analfabetos, Carolina Maria de Jesus passou a maior parte de sua vida como favelada,

sobrevivendo da coleta de papel nas ruas da Capital.

Na idade onde nasceu, Sacramento,MG, no ano de 1914, frequentou, durante menos de dois anos,

um colégio espírita para crianças pobres, escolaridade interrompida com a mudança de sua família para São Paulo,

onde foi morar num barraco de meia-água na favela de Canindé, na da zona norte da Capital.

Foi nessa época que passou a registrar sua experiência como favelada em papeis avulsos e cadernos escolares recolhidos nas ruas.

Nessas voltas que o Mundo dá, o jornalista paulista Audálio Dantas, redigindo reportagens em favelas paulistas,

leu por acaso o texto de Carolina Maria de Jesus e, impressionado com o registro em vinte cadernos escolares recolhidos na rua,

sugeriu a uma editora seu aproveitamento.

“Quarto de Despejo – Diário de uma Favela”, teve sua tiragem de 3 mil exemplares esgotados em uma semana,

Traduzido em 15 idiomas – alemão, catalão, dinamarquês, espanhol, francês, holandês, húngaro, inglês, iraniano, italiano, japonês, polonês, romeno, tcheco, turco – tornou-se sucesso internacional, totalizando, em três edições sucessivas, mais de 100 mil exemplares.

O livro foi adaptado para peça teatral por Edy Lima; serviu de enredo para

um filme realizado por emissora de TV alemã

do qual foi ela própria foi protagonista – “O despertar de um sonho”, inédito no Brasil.

“Quarto de Despejo” foi ainda adaptado para a série “Caso Verdade”, da TV Globo, e, como me lembra produtor da Rádio Clube da Boa Música, inspirou letras para um samba de B. Lobo, gravado por Ruth Amaral.

Esta coluna presta homenagem a essa extraordinária mulher, relegada ao esquecimento pelos círculos chamados acadêmicos,

 publicando um dos seus poemas na coluna deste sábado.

O novo e inovador Portal Don Oleari faz lembrar o que escreveu a favelada negra, pobre, mãe solteira, a auto-didata Carolina Maria de Jesus,

uma dolorosa verdade atemporal como todas as verdades:

– “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer.

Percebi que é horrível só ter ar dentro do estômago”.

 

Quarto de despejo

Carolina Maria de Jesus

Quando infiltrei na literatura
Sonhava só com a ventura
Minhalma estava chêia de hianto
Eu nao previa o pranto.

Ao publicar o Quarto de Despejo
Concretisava assim o meu desejo.
Que vida. Que alegria.
E agora… Casa de alvenaria.
Outro livro que vae circular
As tristêsas vão duplicar.
Os que pedem para eu auxiliar
A concretisar os teus desejos
Penso: eu devia publicar…
– o ‘Quarto de Despejo’.

No início vêio adimiração
O meu nome circulou a Nação.
Surgiu uma escritora favelada.
Chama: Carolina Maria de Jesus.
E as obras que ela produz

Deixou a humanidade habismada
No início eu fiquei confusa.
Parece que estava oclusa
Num estôjo de marfim.
Eu era solicitada
Era bajulada.
Como um querubim.

Depôis começaram a me invejar.
Dizia: você, deve dar
Os teus bens, para um assilo
Os que assim me falava
Não pensava.
Nos meus filhos.

As damas da alta sociedade.
Dizia: praticae a caridade.
Doando aos pobres agasalhos.
Mas o dinheiro da alta sociedade
Não é destinado a caridade
É para os prados, e os baralhos

E assim, eu fui desiludindo
O meu ideal regridindo
Igual um côrpo envelhecendo.
Fui enrrugando, enrrugando…
Petalas de rosa, murchando, murchando
E… estou morrendo!

Na campa silente e fria
Hei de repousar um dia…
Não levo nenhuma ilusão
Porque a escritora favelada
Foi rosa despetalada.
Quantos espinhos em meu coração.
Dizem que sou ambiciosa
Que não sou caridosa.
Incluiram-me entre os usurários
Porque não critica os industriaes
Que tratam como animaes.
– Os operários…

Carolina Maria de Jesus, em Meu estranho diário. São Paulo: Xamã, 1996, p. 151-153. (grafia original)

“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”. São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160.

Rubens Pontes,

jornalista, radialista,

poeta, escritor

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo:https://rubenspontes.com.br

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