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quarta, 13 de dezembro de 2017

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica / Ainda que mal, de Carlos Drummond de Andrade

O autor relaciona nomes históricos da arte e da literatura universal no mundo dos homossexuais e LGBTs

 

– Don Oleari:

Aqui, neste litoral sul da Bahia, já nem sei se é Primavera ou Verão, com a marca do tempo presente em cada um deles num mesmo e curto espaço do tempo. As flores vicejam porque é Primavera e elas esperam por isso; depois murcham, que o calor que as abate é de Verão não cogitado.

Aí me ocorre outro fenômeno, o das pessoas que ao  nascer trazem definido seu sexo mas que, ao correr da vida,   transformam a definição do chamado gênero e assumem uma  nova realidade.

O senhor Editor do Portal conhece meu interesse maior no levantamento de literatura erótica, poemas sobretudo, cultivados por alguns dos maiores  autores brasileiros e de outros países.

Confesso-lhe, no entanto, que minha busca de novos subsídios para abordagem me levou a um campo inesperado: a literatura e as artes produzidas por homossexuais – longínqua associação com o fenômeno das flores e das estações do ano.

Não é regra universal, mas geralmente os artistas homossexuais são dotados de uma sensibilidade mais aguçada, mais intimista, mas sua relação com o mundo é quase sempre vista pejorativamente, apenas no campo da prática sexual.

Lembro-me que na minha juventude chamávamos pejorativamente essas pessoas de pederastas, passivos ou ativos; mais tarde de frescos, veados, bichas, até chegar aos homossexuais e aos gays dos nossos dias, incluídos na nossa sociedade e muitos deles ganhando destaque nela.

E aí fica uma indagação a espera de respostas sobre a relação de causa e efeito: a quase sempre extremada relação da sensibilidade artística desses personagens tem implicação em sua conduta no campo da sexualidade?

– “Quando mais o homem cultiva as artes, tanto menos tesão ele tem.

Cria-se um divorcio cada vez mais sensível entre o espírito e o bruto.

Só o bruto trepa bem, e a trepada é o lirismo do povo.

Trepar é aspirar a entrar em outro, e o artista não sai nunca de  si mesmo.”

Essa conclusão do insuspeito Charles Baudelaire, um dos maiores escritores franceses de todos os tempos, nos contrapõe a Fernando Pessoa, poeta de mil fronteiras, que expressa em um dos  seus poemas:

– “Vontade…

De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastassem

De ser esmagado, o deixado, o desolado, o acabado”.

Álvaro Campos, um dos heterônimos do poeta, que não era nem heterossexual nem homossexual, versejou:

“O amor é essencial

O sexo é só um acidente

Pode ser igual ou diferente”

Senhor Editor Chefe do moderno Portal Do Oleari:

Essa abertura, na verdade, é quase um parágrafo na  linha a que me proponho escrever sobre autores apontados como personalidades LGTB (lésbicas, gays, bissexuais e transgênicos) com singular presença no campo da inteligência criativa  e da produção artística.

Na área da literatura onde  pontuaram  esses intelectuais, quer em prosa, quer versejando, o erotismo pode ou não  ganhar maior ou menor grau de presença, afinal  o que menos importa.

Gênios da Renascença

Dos gênios da Renascença, Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci (à esquerda), aos Séculos  que se  seguiriam com o filósofo grego Sócrates, com  Lorde Byron, com o romancista Oscar Wilde (os dois, acima à esquerda), Eduardo II da Inglaterra, Marcel Proust, Truman Capote, Walt Whitman, André Gide, Tomas Mann, Virginia Wolff, Gore Vidal, Alice Walker, Tim Cook  (CEU da Fortune 500), alinham-se outras centenas de nomes;

Glen Murray, ex-prefeita de Winning, USA,  Bertrand Delanoé, ex-prefeito de Paris, a tenista Martina Navratilova, vencedora de numerosos torneios internacionais, todos homossexuais, se dedicaram a atividades ligadas à arte, ao esporte e  à política,  e transpuseram com seu desempenho fronteiras de espaço e de tempo.

Quem, entre nós, não admira a sensibilidade poética de Hilda Hilst , as canções de Cássia Eller, de Cazuza, de Ney Matogrosso, de Adriana Calcanhoto, de  Daniela Mercury, dos internacionais  Freddie Mercury e Elton John?

Todos são destaques internacionais nos meios da produção de arte que recebem admiração e fortuna com o trabalho que desenvolvem, indiferentemente à sua postura confessada de homossexualismo. Ainda agora, uma tela pintada por Leonardo da Vinci (um gay amparado pelo Vaticano) “SalvatorMundi”, uma imagem de Cristo, foi vendida nos Estados Unidos por fantásticos  450 milhões de dólares.

Tinha que ser assim. Estatísticas revelam que são de  2 a 13 por cento os indivíduos homossexuais na  população, mas há igualmente estudos que sugerem que mais ou menos 22 por cento dela  apresenta algum grau de tendência  homossexual. No Brasil, recente levantamento aponta a média, surpreendentemente alta, de 5,6 por cento da população.

O fato é que, nestes tempo em que vivemos, os denominados em  identificação atual como gays, ainda sem consenso são admirados, tolerados ou condenados. Há países, como o nosso, que permitem e admitem como legal casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outros, como o Irã, condenam os homossexuais ao enforcamento, e na Arábia Saudita ao apedrejamento até a morte.

Na Idade Média, as fogueiras da Inquisição queimaram centenas de “bruxos” que, pelo demônio, praticavam atos de sexo condenados pela Igreja.

Sem nenhum preconceito, postura que me faz ser acolhido neste Portal, permito-me fechar esta coluna com um poema de autor heterossexual que fala sobre o amor, sentimento que inspira e justifica o comportamento dos seres humanos e até, segundo estudos recentes, dos animais. O amor não limita fronteiras.

Voltemos a

Carlos Drummond de Andrade.

Rodrigo Mello Rego”.

 

 

AINDA QUE MAL

Carlos Drummond de Andrade

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Rodrigo Mello Rego,

jornalista, pesquisador de literatura erótica

Mestrado em Estudos Literários na Ufes

 

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