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segunda, 22 de janeiro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Instantes, de Jorge Luis Borges

O ano chegou ao fim e perdoei-me de todas as falhas cometidas, voluntárias e principalmente involuntárias,

no complicado e desafiador 2017.

Pecados graves certamente não os cometemos, e se olharmos para alguns nomes alçados pela Igreja à santificação,
podemos ficar em dúvidas se devemos nos penitenciar batendo no peito e jurando improvável arrependimento:

afinal, dois santos venerados, o padre Antônio Vieira (à direita), famoso por seus sermões, foi um escravocrata,
e São Cipriano empregava o hipnotismo para seduzir donzelas (Flos Sanctorum, citação de Ariano Suassuna).

Nesse inevitável olhar para trás, chego a Jorge Luiz Borges, um conterrâneo do Papa, para sugerirmos
– este colunista, o novo Portal Don Oleari e a Rádio Clube da Boa Música –
a leitura, neste primeiro sábado do ano de um poema pertinente com nossas reflexões.
Ao“Se pudesse Viver Novamente”, a todos os que nos lêem, ou não, desejamos que 2018 abra espaços
para que possam seguir a orientação do Dalai Lama:

– “Dê a quem você ama asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar.”

Rubens Pontes

INSTANTES

Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo.

Rubens Pontes é jornalista, poeta,

escritor

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

 

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