Menu

quinta, 19 de abril de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / O Clérigo, de Neemias Félix (de Linhares/ES)

Mesmo reconhecido como autêntico celeiro de brilhantes intelectuais que levaram

o nome do Estado aos maiores centros mundiais de cultura, o Espírito Santo sempre

surpreende com novas conquistas no campo da literatura. Romancistas, poetas, cronistas, se situam na linha dos grandes pensadores com trabalhos editados, mas as conquistas não param aí.

Neemias Felix, de Linhares (ES), recebe o prêmio de primeiro lugar na categoria adulta na 23ª edição do Prêmio Moutonée de Poesia da cidade de Salto, São Paulo.

Um professor de português, já aposentado, que ficou conhecido por proferir suas aulas toando violão, concorrendo com mais de 500 poetas de 23 Estados brasileiros que

encaminharam 791 trabalhos, venceu a todos na 23ª edição do Prêmio Moutonée de Poesia

da cidade de Salto, São Paulo (terra do ator e diretor de cinema Anselmo Duarte).

Neemias Felix, residente na cidade de Linhares, Norte do ES, o grande vencedor, recebeu, além de um
troféu comemorativo, um prêmio de 2 mil reais em dinheiro, detalhes na conquista que deu a ele projeção nacional, na linha dos grandes poetas brasileiros.

A coluna abre um parêntesis para um registro do Portal Don Oleari destacando a importância

de certames como esse e de iniciativas que estimulam a boa leitura, como a instigante

criatividade implantada no Morro dos Alagoanos, em Vitória, a capital do ES, fazendo inserir, em cada degrau da Escadaria da Gentileza (foto à direita) uma história de autores capixabas.

Neemias Felix merece presença lá.

Fotos de algumas lagoas de Linhares: 1 – Lagoa Nova; 2 e 3, Lagoa Juaparanã, a maior lagoa do mundo em volume de água doce.

O CLÉRIGO

Poema vencedor do 23.º Prêmio Moutonée de Poesia
Salto, São Paulo

Neemias Félix

Fechado em sacros paramentos sacos
lá vem o clérigo
Na tonsura, o súcio, o circo
– cisão que sobe vinda do prepúcio?
únicoheliponto da lisura?
De roupa escura
lá vem o cura
Já falou latim ao povo tartamudo, mudo
e a voz piedosa dosa a intenção maldosa
Quem TV no colarinho em V nada vê
O clérigo
tem mitra, báculo e barrete
e canta, é claro, que em falsete
É cleptomente
e rouba o sacerdócio de todos os crentes
O clérigo não se entrega, intriga e migra
reforma, transmuda e, num instante
renasce em berço e rito protestante
lembrando priscas eras e filactérias
Na língua em pano, em fato domingueiro
velha batina, hábito romano
O clero agora em tom tão evangélico
adora a distinção e os privilégios
ostenta títulos e engendra sortilégios
Enquanto o Mestre se despe, o clérigo veste mais
se enfuna e inflama em vestes clericais
O microfone em riste é poder e assalto
e ocupa sempre lugares mais altos
O clérigo é mais que ativo, é corporativo
Ameaçado, saca este penhor
não alce o braço contra o ungido do Senhor
A tradição que trai sempre insepulta
o odre novo e fresco catapulta
sufoca e acalma a torpe turbamulta
Um lema tem e não faz isso a esmo
que é mudar sempre pra ficar no mesmo.

Rubens Pontes

é jornalista, radialista, poeta,

escritor e prosador

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

 

 

Comentários