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quinta, 16 de agosto de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / A Lagoa, de Catulo da Paixão Cearense

Num papo informal, numa quase noite de dolce-far-niente, entre uma taça de vinho e outra taça de
vinho, o diretor

do Portal Don Oleari e da Rádio Clube da Boa Música olhou pela janela e vendo brilhar no céu a primeira
estrela, meio nostálgico,

solfejou versos da canção “Flor Amorosa’ (veja/ouça vídeo lá embaixo), certamente buscando acordar adocicadas lembranças de sua juventude.

No silêncio que só foi quebrado quando uma nova rolha foi sacada, lembrei-me de algumas outras
canções compostas

por Catulo da Paixão Cearense, um maranhense autodidata que no Rio de Janeiro trabalhou como
relojoeiro e depois se tornou conhecido e admirado como violonista, flautista, e principalmente como poeta e compositor.

“Luar do Sertão” talvez seja a mais conhecida de suas composições, gravada por alguns dos nossos
melhores intérpretes (veja/ouça vídeo lá embaixo),

mas Catulo, em parceria com Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, entre outros, tem seu nome
assinando canções que tornaram

imortal o compositor que faleceu aos 83 anos, em 1946.

A homenagem da Rádio CBM, do Portal Don Oleari e deste colunista à memória de Catulo da Paixão
Cearense

é a escolha de um dos seus poemas para ser lido neste último sábado de janeiro, mês prenhe de
sustos para muitos e de surpresas para poucos.

que parece estar ainda começando e já abre espaço para o carnavalesco mês de fevereiro com seus
desfiles nas passarelas do Carnaval.

“Quase” saudosista, Rubens Pontes.

A Lagoa

Catulo da Paixão Cearense

Tu não tá vendo a lagoa,
aquela lagoa mansa
que parece uma criança
que tá durmindo, a sonhá?
As água tá tão serena,
que a mode que a biririba
caiu do céu, lá de riba,
pra todo o céu espeiá.
Mas porém óia, arrepara,
que basta só um beijinho,
um leve suspirozinho
do vento que não se vê,
pra aquela lagoa mansa,
tão serena e assocegada
ficá toda arrepiada
com as água toda a tremê!…
Pode sê uma bestera
mas porém é uma verdade
aqueilo que eu vô dizê:
vai caminhando… caminha…
Quando tu chegá na bera
daquela mansa rebera
espia, que tu verá,
no fundo daquelas água
tão serena e tão quilara
a cara da tua cara
lá no fundo a te ispiá!
Ou seje bunita ou feia,
tua cara, que parece
a cara da lua cheia,
tá ali… num sai do lugá.
Fica ispiando pra cara,
que a cara fica a ti oiá!
Mas caminha, vai-te embora,
que eu juro pru São Jerome
que a tua cara se assome,
que nem fica sombra inté!
Aquilo que fez cuntigo
ispeiando o teu sembrante,
faz cum outro caminhante,
o primeiro que vinhé.
Apois, aquela lagoa
é o coração da muié…

Esta história da lagoa
num tá dentro da verdade.
Apois, se o home ispiasse
somentes numa lagoa
e junto dela ficasse
dia e noite, noite e dia
de sentinela e de espia,
eu juro pru Jesu-Cristo e a Santa Virge-Maria
que a cara do descarado
nunca mais de lá saía!…
Mas, se em todas as lagoa,
de água limpa ou chavascá,
o home qué vê a cara,
o home qué espiá…
Eu vô fechá minha boca
pruque vanceis tá bém vendo
adonde eu quero chegá…

Rubens Pontes,

jornalista, radialista,

 

poeta, escritor,

prosador

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

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