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quinta, 16 de agosto de 2018

As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica: Rodrigo Mello Rego / Casta, de Chico César

Eu conheci Chico Cesar quando ele foi nomeado Secretário de Cultura do Estado da Paraíba no ano de 2011.

Formado em jornalismo, foi em São Paulo, no entanto, que o paraibano nascido em Catolé da Rocha trabalhou na imprensa antes de ganhar projeção nos meios artísticos, principalmente com a interpretação musical de sua composição “Mama África”.

Posteriormente, li uma entrevista na qual ele abordou o erotismo como tema na poesia, com incursão na sensível área dos versos apontados como pornográficos.

Minha pesquisa me levou a uma entrevista concedida por Chico César ao jornal O Globo, quando do lançamento de seu livro de poemas “Versos pornográficos” pela Editora Confraria do Vento. Nesse livro, Chico aborda episódios de sua pré-adolescência no áspero sertão da Paraíba, uma linguagem franca e pitoresca.

O que Chico Cesar diz:

– No meu disco “Francisco forró y frevo”, canto uma parceria minha com o também paraibano Pedro Osmar que intitulamos “A marcha da calcinha”:

– “A vida tirou a calcinha pra mim/ me dominar, me amar, me amarrar com seda e cetim”. E por aí vai.

Gravamos num pot-pourri em que a juntamos com “A marcha da cueca”, de outro paraibano: Livardo Alves. Os paraibanos estão me saindo bem safadinhos. No meu disco mais recente, “Estado de poesia”, sinto bem presente o erotismo em versos como:

– “A fruta de seus lábios, a alma saindo pela boca, os lábios de sua fruta calma derramando em calda a polpa/ apalpo muito pouco a pouco palpos dos sonhos mais loucos/ doce o caldo derramado desse engenho nunca dentes escorrido em gozo”, da música “Caracajus”.

Sinto que a própria poesia é uma manifestação de libido, do fogo de viver”. Rodrigo do Mello Rego.

CASTA
Chico César

“em público casta
mas quando de mim
em privado se acosta
mulher de palavra
depravada
diz como se falasse ao espelho do que gosta
mais de frente
mas também de costas
diz que a saliva seca
e se faz molhada a cona
episcante o rego
mamilos duros
que mesmo mamá-los
não lhes traz sossego
que o clitóris
grão grilo e grelo
salta ciciante entre a espuma dos lábios
e os dedos sábios
a socorrem sem medo
quando aí se acaricia
e a funda fenda inunda
como tempestade a raiar o dia”
“Versos pornográficos” – Autor: Chico César. Editora: Confraria do Vento.
Páginas: 48.

Chico César diz ainda:

– Gosto muito de literatura erótica. Creio que comecei com Adelaide Carraro (na foto, capa de um dos seus livros mais polêmicos) na Livraria Lunik, que era também loja de discos, em minha Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba.

Eu, bem menino, ali com 8, 9 anos de idade, me interessava pelo tema sexo ao mesmo tempo que me assustava, claro. Ali eu gostava de ler “De onde vêm os bebês”. Mesmo o aspecto, digamos assim, técnico me interessava.

Depois, os livrinhos de “catecismo” com os desenhos de Carlos Zéfiro e seus muitos imitadores e, algo que lembrei agora, umas fitas cassete que contavam histórias bem cabeludas.

A literatura regionalista traz bastante um viés erótico, ou pelo menos sensual. Temos isso em Jorge Amado, José Lins do Rego, Guimarães Rosa.

É muito mel escorrendo pelos dedos, muito cheiro de flor do mato, de dendê pelo corpo, muita pegação em cacimba e beira de riacho. Eu era menino, vendia e lia esses livros”.

Rodrigo Mello Rego

é jornalista

Pesquisador de literatura erótica

 

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