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domingo, 21 de outubro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / “Um Homem e o seu Carnaval”, Carlos Drummond de Andrade

Carnaval, História, Jean Baptiste Debret

 

O Brasil para no Carnaval. É quase uma catarse para uma população sofrida com  o mergulho do País num oceano de águas profundas, quase sem

esperança de volta.

Catarse como estado de libertação, que, como Arístóteles acentuava, ocorre através de uma grande descarga de sentimentos e emoções,

escamoteando,  nesses dias, o sentimento de desesesperança e impotência.

  Esta coluna saúda a chegada do Carnaval e escolhe, muito a propósito, com o aval do Portal Don Oleari e da Rádio Clube da Boa Música, um poema de Carlos Drummond de Andrade para leitura neste sábado.

O poema “Um Homem e seu Carnaval” é mais um dos presentes que o poeta nos deixou e queremos deixar aqui para você se deleitar com cada palavra:

“Um Homem e o seu Carnaval”,

 Carlos Drummond de Andrade

(do livro Brejo das Almas, 1934)

“Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvascurvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.”

Rubens Pontes,

jornalista, escritor,

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

 

 

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