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domingo, 21 de outubro de 2018

Tião Martins – Feminismo: da primeira onda até as lutas atuais

…as mulheres lutam por sua sobrevivência e já não temem nem confiam tanto nos homens.

 

Provocações & Desafios

Tião Martins, de Belo Horizonte

Recém-chegado de uma cidade pequena, onde as mulheres cumpriam, com rigor, as ordens dos namorados, maridos e pais, confesso que me espantou a liberdade explícita das minhas colegas na Faculdade de Direito da UFMG.

As meninas, como eram chamadas então, pareciam saber mais que nós sobre quase tudo que se referisse a mulheres e homens. E algumas delas não sabiam apenas isso: provocavam espanto geral ao anunciarem, em público, que estavam com “coisa de mulher” ou em “um daqueles dias” e exigiam silêncio e educação.

Desconfiávamos que isso era esperteza e malandragem, pois não percebíamos na autora sinal algum de mudança, além da habitual impaciência e irritação. Um ou outro companheiro talvez duvidasse, mas a maioria ficava com cara de cemitério.

Essas colegas nem eram assim tão livres, mas já frequentavam, em bando, alguns botecos, não ocultavam seus ligeiros namoros, trocavam pequenos beijos em público com os namorados e algumas até voltavam para casa depois da meia-noite, sem que os pais sofressem um ataque cardíaco.

A Faculdade de Direito nunca foi tão liberal quanto as escolas de Medicina ou Arquitetura, mas alunos e alunas, debruçados sobre a mesa de um bar e influenciados por autoras, autores e cineastas franceses, trocavam fofocas, piadas e informações cuja existência os pais ignoravam ou fingiam desconhecer.

E, quando juntos, garotas e garotos sonhavam com o dia em que seriam livres de todas as amarras.

Nesses primeiros anos de faculdade, acreditávamos que os homens iriam advogar e as mulheres seriam, na melhor das hipóteses, funcionárias públicas ou esposas dos doutores.

Também sabíamos, é claro, que maridos espancavam mulheres, mas isso era coisa da “plebe rude” e jamais um costume dos doutores ou um problema das doutoras. Resumindo, éramos mais ingênuos e bobos que a maioria das meninas e nos julgávamos escandalosamente espertos.

Comparar nossa turminha de brasileiros com o que vinha acontecendo no México, desde 1915, dá até vergonha. Lá para as bandas do Yucatán, as professoras de cursos primários já vinham pondo a boca no mundo em defesa do feminismo e contra a violência dos machinhos.

É bem verdade que muitas sofreram, mas nem por isso deixaram de protestar. Entre 1915 e 1919, essas professoras criaram clubes feministas e uma delas, Rita Cetina Gutiérrez (foto à direita, acima), liderou a criação de uma associação, uma escola e uma revista intitulada “Siempre Viva”, tudo isso em defesa dos direitos das mulheres.

Outras feministas dedicaram-se a lutar pelo direito ao voto, ao reconhecimento da mulher como ser humano e ente social, sua sexualidade e seu direito à educação sexual. E uma delas, Hermila Galindo, criou um semanário (foto) intitulado La mujer moderna, que durante quatro anos discutiu aspectos e problemas da realidade feminina.

Os políticos brasileiros gostam de esquecer, até hoje, o que foi a luta das mulheres brasileiras, no século passado, pelo direito de votar e, depois, de serem votadas.

Hermila Galindo defendendo direitos da mulher 

Algumas, mais corajosas, foram desprezadas e agredidas por pais e maridos valentes, que atribuíam ideias e pretensões femininas ao velhíssimo Satanás e seus adeptos.

No México, deram o nome de “primeira onda” a essa insurreição feminina, mas ninguém foi capaz de evitar que, no início dos anos 60, tanto no México quanto no Brasil, um grande número de mulheres passasse a frequentar as universidades e disputar oportunidades de trabalho.

Ainda assim, entretanto, brasileiras e mexicanas enfrentam preconceitos, jogos sujos e obstáculos que sobrevivem até hoje.

No mundo da política, por exemplo, as mulheres costumam ser abertamente manipuladas por líderes partidários, que se aproveitam tanto da fama que elas têm de inteligentes, educadas e dedicadas aos mais pobres quanto da ingenuidade com que aceitam participar de negociatas criminosas armadas por companheiros de partido.

Algumas se livraram dessas armadilhas e hoje fazem política de qualidade. Outras, entretanto, estão se entregando ao que existe de pior no mundo político brasileiro. E muitas continuam fiéis aos chefes, mais experientes e desonestos que qualquer bandido profissional.

No México, é do nosso tempo a crescente onda de violênca física e moral contra mulheres, tanto nas ruas quanto nos bares, cinemas, teatros, locais de trabalho e nos meios de comunicação de massa.

Nesse departamento não havia grande diferença entre Brasil e México, mas ao final do século XX os mexicanos superaram largamente os brasileiros em matéria de abuso, agressão física nas ruas e nos lares e, principalmente, assassinato de mulheres.

Ainda hoje, tanto a Cidade do México quanto as demais regiões são marcadas pela violência doméstica ou pública contra mulheres. E a Justiça local parece dedicar um carinho especial aos machos, por mais violentos que sejam.

Há dezenas de movimentos feministas organizados, muitos deles formados por mulheres de classe média e com elevados índices de educação, assim como há organizações que atraem trabalhadoras no campo, na indústria e nas áreas urbanas.

Além disso, jovens feministas de classe média formaram grupos de apoio às mulheres mais pobres e têm contribuído para impedir que muitas dessas trabalhadoras sejam fatalmente condenadas pelo Judiciário.

E as próprias trabalhadoras estão mais conscientes dos seus direitos, embora ainda não consigam eliminar as ameaças e violências praticadas no local de trabalho, em casa ou no meio da rua.

Resumindo: as mulheres ainda têm pela frente uma longa batalha por sua sobrevivência, mas estão mais conscientes que nunca. Já não temem e nem confiam tanto nos homens.

Já passa da hora dos machinhos acordarem…

 

Tião Martins

é jornalista

[email protected]

 

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