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tera, 11 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Noturno, de Ariano Suassuna

 

Permito-me situar Machado de Assis como o criador do romance brasileiro e Guimarães Rosa como

seu renovador (na foto, os dois à direita e à esquerda Clarice e Graciliano). Entre um e outro, pelo menos dez autores já lidos por mim

ganham relevo especial, como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos,Jorge Amado, Rubem Braga, João Ubaldo Ribeiro , Lima Barreto (nas fotos, os três à esquerda), Manuel  Antônio de Almeida.

Propositadamente, não foi ai incluído  o nome de Ariano Suassuna,

um intelectual eclético na área da inteligência brasileira,

visto por muitos como o nosso maior escritor no final do Século passado.

Sua vida foi marcada por tragédias, desde o assassinato de seu pai, ex governador da Paraíba, ao suicídio de um

dos seus irmãos,  esfaqueando-se no peito com um punhal. Dramas dos quais parece nunca ter ele superado.

Ariano Suassuna, paraibano de  João Pessoa, bacharel em Direito, poeta, ator, diretor de teatro, romancista, artista plástico, professor, secretário e Educação e  da  Cultura de Pernambuco,

reitor de universidades,  membro da Academia Brasileira de Letras, teve obras editadas em vários países, como  “O Auto da Compadecida”, exibido

pela TV Globo num seriado de quatro capítulos, “O Rico Avarento”, “A História do Amor  de Fernando e Isaura”, ”O Santo e a Porca”, “O Romance  d’A Pedra do Reino”.

A Escola de Samba Império Serrano prestou-lhe uma homenagem desfilando na Sapucaí, em Carnaval passado, com o enredo” Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino Ariano Suassuna”

em São Paulo  pela Escola de Samba “Mancha Verde” e  em Recife pelo bloco “O G

alo da Madrugada”.

Seu último livro, editado depois de sua morte em julho de 2014, aos 87 anos, é o extraordinário “Romance de Dom  Pantero no Palco dos Pecadores”, uma obra no nível de “Grande Sertão, Veredas”,

de Guimarães Rosa, uma leitura obrigatória (Editora Nova Fronteira, 2017 –  2 volumes).

O Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e este colunista prestam sua homenagem ao grande homem de letras que foi Ariano Suassuna,  publicando para leitura neste sábado

o seu poema

Noturno

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados. Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mãos…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

Rubens Pontes,

jornalista, escritor,

radialista, prosador

– Passos, saltos & quedas,
livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

Na foto à direita, acima, Ariano exibe primeira página da Ilustrada – Folha de São Paulo – falando sobre uma banda. Ele comenta a matéria no vídeo a seguir. Vale apena conferir o que diz – muito divertido – o grande Ariano Suassuna.

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