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sexta, 16 de novembro de 2018

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica / O anão triste, de Hilda Hilst

Retrato inédito de Hilda Hilst, feito por Fernando Lemos em 1954, que ficou 60 anos guardado.

 

Senhor Redator Chefe do Portal Don Oleari:

No meu trabalho de pesquisa sobre o erotismo na literatura, principalmente no campo dapoesia, poucas personalidades me impressionaram tanto quanto Hilda Hilst, certamente pelo agudo  contraste que se observa em suas criações.

A escritora Hilda Hilst (1930-2004), em foto de 1952: elegante e belíssima.

E não estou sozinho nesse registro. Sobre essa figura impar escreveu o renomado crítico Adriano Dias:

– “Na vida real, uma linda loira, de pensamento irascível e independente, culta e autêntica como as mais poderosas fêmeas que já se inscreveram na história da civilização humana.

Ao envelhecer, uma senhora amável, divertida, sem pudores hipócritas, amante dos seus cães, fiel aos amigos, pacífica e incentivadora da arte em sua chácara, a Casa do Sol.

Como escritora, um fenômeno raro nas vozes femininas que imprimiram seu talento em língua portuguesa. Capaz das mais profundas referências, das construções mais eruditas ou de uma fábula das mais prosaicas.

Pesquisadora incansável da literatura clássica. Embora seja, talvez, a melhor das escritoras brasileiras, jamais se  terá uma aula sobre seus trabalhos polêmicos nos anos do Ensino Médio” (talvez nem ouça seu nome mencionado, pois Hilda Hilst é a mais maldita escritora em língua portuguesa) Adriano Dias.

Poeta, ficcionista, cronista, dramaturga, Hilda Hilst, a paulista de Jaú, interior de São Paulo, é apontada por muitos estudiosos como a maior expressão da poesia brasileira.

Filha de abastado fazendeiro de café, o também jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado, Hilda Hilst, amiga de Lygia Fagundes Telles, é uma das mais premiadas escritoras brasileiras – Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Grande Prêmio da Crítica pelo livro “Ficções” considerado o melhor do ano; Grande Prêmio Moinho Santista. Prêmio Jaboti…

Escrevendo textos ou compondo versos, ela provoca as mais desencontradas reações entre seus leitores, mas nenhum deles poderá arguir falta de talento em tudo que dela se lê.

É o que pretendemos mostrar com sua prosa no texto a seguir e com um dos seus poemas.

Rodrigo de Mello Rego”.

Texto de Hilda Hilst:

– “Antes da fala da igreja vou falar do bordel a 30 quilômetros da Gota do Touro. No bordel todo mundo gostava de ver Liló lamber as putas.

E ele adorava que o vissem. Era um sujeito atarracado, elegante, doidão por xereca de puta. Tomava três ou quatro cálices de cachaça puríssima que as mulheres encomendavam lá de Minas, e aí começava um ritual danado. Dizia: quem é a primeira hoje? As mulheres riam, os homens davam seus palpites. Nessa noite havia uma moça novata, chamada Bina.

18 anos, a cabeleira opulenta até a cintura, ancas avantajadas, seios delicados, boca de mulata, polpuda, e que dentes! Liló só estava interessado na cona da moça.

Todo mundo começou a gritar Bina! Bina! Ela riu dengosa, fez muxoxo de acanhadinha e liló foi ajeitando a cadeira de veludo rosa, fofa, porque era naquela cadeira que ele gostava de examinar qualidade, espessura e tamanho das cricas. O pessoal ficava à volta bebericando, ele mandava a mulher se sentar, fazia vênias, perguntava se não queria um gole de vinho doce, era gentil feito embaixador.

Nesse dia, então, foi Bina. Liló gostava da moça vestida. Ele ficava só de cuecas. Um cuecão muito branco, largo, a caceta pra dentro. Bina sentou-se. Alguns homens já ficavam de pau duro logo nesse pedaço.

Outros não aguentavam ver até o fim e ejaculavam ali mesmo encostados nas outras donas. Liló ajoelhava-se. Ia levantando devagarinho a saia da moça dizendo “abre lindinha, abre um pouco mais, vem mais pra frente da cadeira, não fica nervosa bichinha”. O prazer de Liló era o acanhamento postiço da mulher. Todas sabiam que ele só gostava se a mulher fingisse pudor, um pouco de receio no início, um tantinho de apreensão.

Quem ia ser chupada já sabia disso. Gostava também que usassem calcinha. Ia empurrando o tecido da calcinha para a virilha da mulher e esticava os pentelhos devagar.

Depois tirava a calcinha e começava a examinar a boceta. Vejam, ele dizia, esta é de cona gorda, peitudinha de boca. Os homens se inclinavam. Alguém dizia: deixa eu dar uma lambida, Liló?

Calma, cara, o assunto é comigo agora. Algumas ficavam logo molhadas e aí ele gostava muito, punha o dedo lá dentro e mostrava: vê, gente, já tá empapada. Dona Loura, a gerente (era assim que era chamada a cafetina), trazia uma almofadinha de cetim azul e punha debaixo das coxas da mulher. E Liló começava o trabalho. De início dava uma grande lambida e parava. Bina se torcia inteira.

Ele perguntava: “quer mais?” Ela dava um gemido de assentimento. “Então fala que quer mais, senão não lambo mais.” “Quero mais, Liló, Por favor.” A caceta de liló era um talo duro e gotejante.

Uma das putas deitava ao lado dele e começava a chupá-lo. Ele ia lambendo Bina igual à cadela que lambe a cria, o linguão de fora. Parava de vez em quando.

 As mulheres seguravam a cabeça da que estava sendo chupada e alguns homens a beijavam na boca outros nos seios. Tinha jeito de mesa de cirurgia aquilo tudo (sorry, médicos).

Liló só queria a cona e ejaculava espasmódico na boca da outra no tapete, enquanto Bina gozava na boca de Liló. Em seguida Liló levantava-se com um grnde sorriso e dizia: “Meu nome é liló, o lambefundo.

E mais uma rodada pessoal, de cachaça especial, dona Loura!” Depois não queria mais mulher alguma. Tomava dois cálices no balcão do bar do puteiro e saía com passadas rapidinhas, ereto e sempre muito elegante.”

A obra de Hilda Hilst em destaque na Flip de 2018: a escritora paulista é a homenageada da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 25 a 29 de julho deste ano de 2018.

O anão triste

Hilda Hilst

De pau em riste
O anão Cidão
Vivia triste.
Além do chato de ser anão
Nunca podia
Meter o ganso na tia
Nem na rodela do negrão.
É que havia um problema:
O porongo era longo
Feito um bastão.
E quando ativado
Virava… a terceira perna do anão.
Um dia… sentou-se o anão triste
Numa pedra preta e fria.
Fez então uma reza
Que assim dizia:
Se me livrasses, Senhor,
Dessa estrovenga
Prometo grana em penca
Pras vossas igrejas.
Foi atendido.
No mesmo instante
Evaporou-se-lhe
O mastruço gigante.
nenhum tico de pau
Nem bimba nem berimbau
Pra contá o ocorrido.
E agora
Além do chato de ser anão
Sem mastruço nem fole
Foi-se-lhe todo o tesão.
Um douto bradou: Ó céus!
Por que no pedido que fizeste
Não especificaste pras Alturas
Que lhe deixasse um resto?

Porque pra Deus
O anão respondeu
Qualquer dica
É compreensão segura.
Ah, é, negão? Então procura.

E até hoje
Sentado na pedra preta
O anão procura as partes pudendas…
Olhando a manhã fria.

Moral da história:
Ao pedir, especifique tamanho
Grossura quantia.

Rodrigo Mello Rego,

jornalista,

pesquisador de poesia erótica

Edição de fotos e vídeos: OO.

Abaixo, musicado por Zeca Baleiro, Canção IX, cantada por Mônica Salmaso. E quatro poemas na voz de Hilda Hilst.

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