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quarta, 26 de setembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / “70 Metros”, do médico capixaba e poeta Jorge Elias Neto

Interessante o registro da presença de médicos capixabas no campo da poesia,

uma área da criatividade intelectual geralmente focada em profissionais de setores mais

sensíveis a esse tipo de manifestação.

No Espírito Santo, um ex-presidente do Estado, o médico Graciano dos Santos Neves (à esquerda)

destacou-se como grande poeta, como fora assim distinguido o também médico José Madeira de Freitas.

Mendes Fradique é o pseudônimo de José Madeira de Freitas, nascido em Alfredo Chaves, ES, em 1893. Ilustrador, desenhista, chargista e escritor.

Jorge Elias Neto não será, portanto, exceção (à direita). Também médico, também poeta, residente

em Vitória, membro da Academia Espíritosantense de Letras, vem tendo marcante

atuação no campo da literatura, com vários livros editados e permanente presença em

revistas eletrônicas e em um blog onde exprime e divulga suas emoções.

Esta coluna, a Rádio Clube da Boa Música e o Portal Don Oleari se irmanam no

propósito de homenagear a classe dos médicos que, a par de seu espinhoso mister

de curar males físicos, não se alheiam ao dom (quase disse divino) de mitigar os problemas da alma com

os versos que sua sensibilidade é capaz de criar.

Da esquerda para direita: Jorge Elias Neto, Marcos Tavares (poeta e cronista), José Augusto Carvalho (linguista e cronista), Oscar Gama Filho (poeta), Reinaldo Santos Neves (Romancista), Pedro Nunes (contista, romancista e historiador) e Fernando Achiamé (historiador e poeta).

O poema de Jorge Elias Neto, escolhido para leitura neste primeiro sábado de março,

“70 Metros”, põe a nu, até com certa crueldade, a nossa perplexidade diante de perguntas sem respostas,

uma inquietação indefinida mas amarga, muitas vezes assinaladas em poemas de Fernando Pessoa.

Fez eco em minha memória o verso “Minha mãe guardou meus cachos de anjo”.

Rubens Pontes”.

 

70 METROS

Jorge Elias Neto

Na perspectiva da ponte
O pássaro solitário não volta.

Bom sentar aqui…
Gera um desvio do olhar;
um torcicolo súbito
diante da emanação do absurdo.
Ver do alto a evolução das águas:
sem o murmúrio
do bocejo das ondas,
sem o grito ruidoso do
rasgar do mar.
Imagino os que trafegam às minhas costas…
Nas gaiolas de metal,
guardam as intenções dos gestos.
Que assim fiquem — distantes!
Cada despedida vale pela nudez dos corpos;
o íntimo dos olhos.
E o momento não pede tal intimidade…
(A Penha ergue-se sobre todas as coisas…)
Minha mãe guardou meus cachos de anjo,
cortados,
abençoados…
Mas os anjos são lívidos
demais para serem humanos…

(A eternidade é uma metáfora que já não me ilude.)

Lá embaixo,
no Oceano de pedra,
reside o fim da angústia essencial.
Desmantela-se a Lei suprema.
(Que homem ruidoso medrou minha carne?)
A busca do indefinido.
Muito me interessam os fósseis,
desimpregnados de nomes…
As palavras curtas;
o anzol justo na boca da morte.
Nesse beiral, ancoram-se cruzes,
destroem-se firmamentos.
Sacia-se a fome de ossos
dos Oceanos.
Uma grande composição nua de gestos.
Eis a porção relativa da insignificância
humana.

Mas, por ora,
contenha as lágrimas, leitor.
Não se trata de vida do poeta.
Por mais que insista, a vida é mais irônica

que minhas palavras.

Vitória 12.7.2012 – http://jeliasneto.blogspot.com.br/

Nota: 70 metros é a altura do vão central da ponte Darcy Castelo Mendonça – Terceira ponte – que liga a Ilha de Vitória a Vila Velha/ES (no continente).

Rubens Pontes,

jornalista, radialista,

poeta, escritor

– Passos, saltos & queda

livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

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