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domingo, 20 de maio de 2018

Diagonal imitando Rubens Pontes: meu poema de segunda-feira / Manoel de Barros: O Apanhador de Desperdícios

– Eu queria ser Ariano Suassuna. Mas eu queria ser também Manoel de Barros”.

 

Canarinho da Terra: o macho é o mais amarelim, a fêmea tem uma cor mais amarronzada. 

Bela segunda-feira! Como, aliás, têm sido belos todos os dias de janeiro, fevereiro e março.

Festejo a chuva, festejo o sol, reclamo do calor, ligo o ar condicionado do meu véi chevrolezim, boto um CD dos que ando reouvindo, e sigo em frente.

Não brigo com o tempo. Está chovendo? Tempo bom. Está nublado? Tempo bom. Tá sol chamando pra ir pruma praia e se deliciar com um bom espumante? Tempo bom. Tá de manhã, de tarde, de noite? Tempo bom.

Ressalvo as birras por desatenções e desinteresses pelos meus feitos ou doideras, respiro fundo, dou água pras minhas plantinhas, experimento mudas, podo aqui, podo ali as mais altas, crio áreas claras para as quistão mais embaixo.

Jogo canjiquinha ou farelo pros canarim da terra, rolinhas, 2 cardeais – os de cabeça vermeiada, também conhecidos como Galo de Campina do Nordeste – melros (*), pois eles ainda rolam por aqui, proximidades de um parque botânico.

(*)  Em alguns lugares, o Melro é chamado de Graúna. No Nordeste, é Assum Preto (veja vídeo de Luiz Gonzaga lá embaixo). No ES e em Minas Gerais é Melro, nome supostamente dado por imigrantes europeus, que têm um pássaro parecido na Europa.

Apesar da maledeta poluição geral, ampla e irrestrita – gás carbônico dos carros e da motopraga, posim preto da Vale e da Acellor Mital, entroutras poluidoras bem amparadas pelos supostos códigos e órgãos de proteção ambiental.

Tô Enem aí.

Outro dia eu disse ao Rubens Pontes que “eu queria ser Ariano Suassuna”. Mas leio alguma coisa desse cara, Manoel de Barros, e fico matutando cá cos meu fechecler: “Eu também queria ser Manoel de Barros”.

Pelo seu jeito de dizer lindamente coisas simplisinhas que deixam de ser coisas simples ditas por ele: pramim, passam a ser coisas que me deixam abestado, embabacado de ver como um gênio pode transformar palavras e imagens simples em verdades universais.

Mas, ô sô, nun intendu nada disso nunsinhô, mal sei lê e iscrevê umas bobajera sem qualquer valor ou sentido. Faço de conta que sou Manoel de Barros e deixo esse daí proceis:

O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

Manoel de Barros

Aí, um gênio da rica música do Nordeste, numa gravação de 1950. No outro vídeo, o canto do passarim conhecido como Cardeal.

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