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quinta, 13 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / “A Ceia dos Cardeais”, peça em versos de Julio Dantas

Portugal, berço de intelectuais alçados ao panteon da imortalidade

 

Fernando Pessoa e Florbela Espanca (foto) são, para o colunista, os dois maiores poetas de

Portugal, alinhando-se, ela e ele, no elenco dos grandes nomes da literatura mundial.

Não se pode, porém, ater-se apenas a uma e ao outro, quando Portugal é berço de intelectuais

do porte de José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura), do imortal Luiz de Camões, de Almeida Garret,

Eça de Queiroz (um dos autores mais lidos da minha geração), Manoel Barbosa du Bocage, Alexandre Herculano,

Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Antero de Quental., Álvares de Azevedo…..

Mas, neste sábado, me volto para um poeta menos conhecido entre nós, nem por isso deixando

de ser importantíssima referência entre os leitores de poesia: Júlio Dantas, um nome que associo

sempre a Guerra Junqueiro, dois expoentes da literatura portuguesa, que, a exemplo de Florbela Espanca e Fernando Pessoa,

foram também alçados ao Panteon da imortalidade.

Julio Dantas, autor do nosso poema para este sábado, esteve no Brasil, mais de uma vez, e na década de 40

no cargo de embaixador de Portugal.

Sua obra teve seguidores entre nós, entre eles Vinicius de Moraes que se confessou “discípulo ardente

de Júlio Dantas”.

–  “Escrevi uma peça em versos – Os Três Amores”, uma imitação da “Ceia dos Cardeais”,

confessou o poetinha.

Este colunista, o Portal Don Oleari e a Rádio Clube da Boa Música rendem tributo à genialidade de Júlio Dantas escolhendo unanimemente para nosso Poema de Sábado “A Ceia dos Cardeais”, que segue publicado na íntegra em duas partes.

Júlio Dantas – Lagos, 19 de Maio de 1876 — Lisboa, 25 de maio de 1962 (86 anos) – escritor, médico, político e diplomata.

Júlio Dantas
________________________________________
A CEIA DOS CARDEAIS ( Parte I )
Peça em um acto em verso, representada pela primeira vez
no antigo teatro D. Amélia, em 28 de Março de 1902
________________________________________

Uma grande sala, no Vaticano. Paredes cobertas de panos de Arras – Amplos tectos de caixão, com apainelamentos de talha doirada – Um retrato de cardeal vermelho, sobre o fogão – À D. baixa, o cravo, o violoncelo e o violino de um terceto clássico – Estantes altas de coro – Luzes – Ao fundo, largo tamborete onde repousam as capas, os chapéus, os bastões – À E. baixa, grande armário pesado de baixela de oiro e prata lavrada – Quase a meio, bufete onde ceiam os três cardeais: toalha de holandilha, picada de rendas; serviço de Sèvres, azul e oiro; cristais.


CARDEAL GONZAGA, CARDEAL RUFO, CARDEAL DE MONTMORENCY, sentados ao bufete, ceando; os fâmulos, vestidos de verde e prata, servem-nos, de joelhos.

CARDEAL RUFO, visivelmente agastado.

Será já amanhã!

CARDEAL RUFO, a outro fâmulo
Xerez.
Continuando, a de MONTMORENCY:
Roma! Roma! Que viu pela primeira vez,
Benedito XIV, um para receber
Conselhos de Inglaterras e cartas de Voltaire!

CARDEAL DE MONTMORENCY, grandioso
As cartas de Voltaire honram!

CARDEAL RUFO, num sorriso de desdém
É natural.
Fala como francês.

CARDEAL DE MONTMORENCY, com dignidade
Falo como cardeal!

CARDEAL GONZAGA, intervindo de novo
Mas, perdão… Não será política demais
Para uma ceia alegre? Enfim, três cardeais
Não salvam Roma …

CARDEAL RUFO, numa grande atitude
Pois, em minha consciência,
Bastava um só para salvar!

CARDEAL DE MONTMORENCY, com ironia
Vossa Eminência?

CARDEAL GONZAGA, conciliando docemente
Deixemos isso a Deus. E, na divina mão.
Roma repousará

CARDEAL DE MONTMORENCY, num sorriso
Vamos nós ao faisão?
Trinchando, com galanteria:
Se permitem, eu sirvo. É um faisão doirado,
Mau político, sim, mas todo embalsamado
De trufas. Nunca fez encíclica nenhuma;
Não usou solidéu por sobre a áurea pluma,
E, se um dia assistisse a qualquer consistório,
Dormiria como eu – e como S. Gregório.
AO CARDEAL RUFO:
Eminência, não acha?
AO CARDEAL GONZAGA, servindo:
A perna? A asa? O peito?
Muito superior, sobretudo em direito
Canônico. Uma asinha, Eminência? Talvez
A possa amaciar, regando-a de Xerez.
A ave é rija demais para velhinhos doentes…

CARDEAL GONZAGA, formalizando
Eminência, ainda tenho uns quatro ou cinco dentes.

CARDEAL RUFO, provando o faisão
Benedito talvez não ande muito mal
Ser der ao cozinheiro o chapéu de cardeal!

CARDEAL DE MONTMORENCY, ao CARDEAL RUFO
Inda agora, a Eminência agastou-se comigo.
Confesse…

CARDEAL RUFO
Eu?

CARDEAL DE MONTMORENCY
Agastou.

CARDEAL RUFO, desculpando-se
Voltaire é um inimigo…

CARDEAL DE MONTMORENCY
E nós amigos. São discordantes fugaces.
Eminências…

CARDEAL RUFO, abraçando-o
Depois…

CARDEAL DE MONTMORENCY, beijando-o
Vem o osculumpacis

CARDEAL RUFO
Sobre um beijo outro beijo e sobre um ano outro ano…
Como envelhece a gente, o Velho Vaticano!
A política… O mal que se faz e desfaz
No mistério subtil destes panos de Arrás…
A intriga na sombra, os passos sempre incertos…

CARDEAL GONZAGA, olhando a estante de música
O que nos vale…
CARDEAL DE MONTMORENCY
Ah, sim…São os nossos concertos.

CARDEAL RUFO
Música de uma unção espiritual tão grande!

CARDEAL GONZAGA, em êxtase
Como a alma sobe a Deus nas fugas de Lalande!

CARDEAL RUFO, a DE MONTMORENCY
Depois, o seu violino… Eminência é artista…

CARDEAL DE MONTMORENCY, a RUFO
E o seu violoncelo…

CARDEAL RUFO
Oh! A perder de vista!
Num sorriso de beatitude:
Só com três cardeais, Roma era um céu aberto!

CARDEAL DE MONTMORENCY, tristemente
Tão longe a mocidade…

CARDEAL GONZAGA, numa lágrima
E o trêmulo tão perto!_
Caiu-nos sobre a fronte a neve dos caminhos…

CARDEAL RUFO
Envelhecemos tanto!

CARDEAL GONZAGA, a RUFO
Estamos tão velhinhos…_
Já fez sol, para nós.. Sol! Pois não é verdade?

CARDEAL RUFO, como num sonho
Sol!
CARDEAL DE MONTMORENCY, a um dos fâmulos

Mais champanhe.

CARDEAL GONZAGA
Sol! _ Nós que somos a saudade.
O pensar que se amou, que se viveu… O amor!
_ Um tronco envelhecido a cuidar que deu flor!
Depois, num embevecimento:
Misterioso monte é neste mundo a vida!
Todo rosas abrindo, ao galgar na subida,
E a velhice, ao descer, toda cheia de espinhos…
_ Ai, tão velhinhos!
CARDEAL RUFO, tristemente
Tão velhinhos!

CARDEAL DE MONTMORENCY, olhando os dois,
com ternura
Tão velhinhos!

CARDEAL RUFO
Relíquias. Devo ter setenta e três, já feitos.

CARDEAL GONZAGA
Eu tenho oitenta e um.

CARDEAL DE MONTMORENCY, sorrindo a olhá-los
São dois velhos perfeitos!
Três… Três velhos sem cor, que a saudade aviventa…

CARDEAL RUFO, a DE MONTMORENCY
Vossa eminência tem, quantos?

CARDEAL DE MONTMORENCY
Tenho sessenta.

CARDEAL RUFO, ao CARDEAL GONZAGA,
olhando DE MONTMORENCY com inveja infantil
Sessenta, só!

CARDEAL DE MONTMORENCY
Sessenta. E a vida já me cansa…

CARDEAL GONZAGA
Vossa Eminência está ainda uma criança!

CARDEAL RUFO, olhando DE MONTMORENCY
Também já fui assim! E que rijo que eu era!
Sessenta anos! Ainda em plena Primavera!
Tal qual assim… Tal qual!

CARDEAL GONZAGA
E eu! O que direi eu!

CARDEAL RUFO
Então, ainda compunha ao espelho o solidéu
E via com amor, sob a seda vermelha,
Uns fios de oiro a rir por entre a prata velha!

CARDEAL DE MONTMORENCY
Mas, Eminência, não! Com sessenta anos feitos,
Não sou, precisamente, uma criança de peitos.
Sou um velho, também… Um velhinho, com o ar
De quem viveu feliz e envelhece a cantar…

CARDEAL GONZAGA
É. É uma criança. Em tendo a nossa idade,
Verá que o relembrar coisas da mocidade
É o prazer maior que podem ter os velhos…
Para nós, recordar é cair de joelhos.

CARDEAL DE MONTMORENCY
Eu sei, eu também sei… Recordar é viver,
Transformar num sorriso o que nos fez sofrer,
Ressurgir dentro d’alma uma idade passada,
Como em capela de oiro há cem anos fechada,
Onde não vai ninguém, mas onde há festa ainda…
Se eu não hei-de saber como a saudade é linda!
Se eu não hei-de saber! _ É curioso, Eminências.
Não fizemos ainda as nossas confidências,
E somos como irmãos… Tão amigos!

CARDEAL RUFO
É certo!

CARDEAL GONZAGA
Confidências?

CARDEAL DE MONTMORENCY
Então… A morte vem tão perto!
Olhemos para trás, lembremo nos da vida…
A saudade de um velho é uma estrada florida!

CARDEAL RUFO
Confidências de amor!

CARDEAL DE MONTMORENCY
Porque não há-de ser?
Em toda a mocidade há um rido de mulher.
Contemos esse rido uns aos outros…Nós três…
Recordar um amor é amar outra vez!
Ninguém nos ouve…

CARDEAL GONZAGA
Mas, Eminência!

CARDEAL DE MONTMORENCY
O maior
Amor da nossa vida!

CARDEAL GONZAGA, com pudor, tapando a cara
Oh!

CARDEAL RUFO, como quem sonha
O maior amor!

CARDEAL GONZAGA
Mas nós somos cardeais!

CARDEAL RUFO, entusiasmando-se
O sentimento humano
Em toda a parte vive, até no Vaticano!
E esta púrpura – ai não, seria crueldade! _
Pode matar o amor, mas não mata a saudade!

CARDEAL DE MONTMORENCY, ao CARDEAL GONZAGA
Principie o mais velho… Eminência…

CARDEAL GONZAGA
Não, não…
Por Deus!

CARDEAL RUFO, a DE MONTMORENCY
Seja o mais novo.

CARDEAL DE MONTMORENCY, escusando-se,
polidamente num gesto
Oh!

CARDEAL RUFO
Serei eu, então.
Pensando um instante
Que lhes hei-de contar?
Erguendo a cabeça, os olhos brilhantes,
como quem encontrou:
Uma aventura linda,
Cheia de coração! Ai, não ter eu ainda
Mocidade na voz para a saber contar!
Eminências, perdão se eu acaso chorar…
Se uma lágrima… _ Enfim, são tudo impertinências
De velhos…

CARDEAL DE MONTMORENCY, convidando-o a principiar
Eminência…

CARDEAL RUFO, depois de um ligeiro cumprimento
a ambos
Eu começo, Eminências.
Aos vinte anos, ou vinte e dois, pròximamente,
Fui eu, por gentileza a um fidalgo parente,
Com minha capa negra e minha volta branca,
Ler cânones e leis na Douta Salamanca.
Era então um pequeno, espadachim e ousado,
O feltro ao vento, o manto ao ombro, a espada ao lado,
Tendo o instinto da frase e a intuição do gesto
_ Um Velásquez no trajo, um Quixote no resto _,
Que seria talvez, por suprema façanha,
Capaz de desafiar o próprio rei de Espanha!
Nem pode calcular sequer, Vossa Eminência,
Como o meu buço loiro irradiava insolência!
Não matei em duelo o Sol, pelas alturas,
Só para não deixar Salamanca às escuras!
A respeito de amor, como essência divina,
Imitei o Don Juan de Tirso de Molina:
O amor, por mais ardente ou mais puro que fosse,
Morria, ainda em flor, com a primeira posse!
Detestava a mulher depois de conquistada:
A conquista era tudo: o resto, quase nada.
Queria lá saber de aventuras serenas!
Para mim, o amor era o duelo, apenas,
Batia-me ao acaso, enfim, por qualquer cousa,
Um beijo, uma mulher, uma pedra preciosa,
Uma flor que se atira, asa de oiro pelo ar,
A esmola de um sorriso, a graça de um olhar…
Já não tinha valor para mim nenhum bem,
Se não fosse preciso ir disputá-lo a alguém,
Lutar, vencer, rasgar, ardendo de desejo,
Com a ponta da espada o caminho de um beijo,
Pomar de assalto o Amor, ao Sol de mil perigos,
Como um rubro estandarte entre mãos de inimigos!
Assim vivia eu e os outros estudantes,
Lendo pouco Platão, lendo muito Cervantes,
Quando entrou de jornada em Salamanca, um dia,
Sobre carros de bois, a maior companhia
De cósmicos que eu vi ainda em toda a Espanha!

CARDEAL DE MONTMORENCY, num sorriso
Se visse a de Molière… Oh!

CARDEAL RUFO, sem se perturbar
Não era tamanha,
Nem tão rica, por certo. Ah! Foi uma loucura
Na Universidade! _ A primeira figura
Do bando era uma viva e linda rapariga,
Um Rubens precioso, uma beleza antiga…

CARDEAL GONZAGA, tapando a cara
Oh!

CARDEAL RUFO
De um loiro flamengo, a cabecita airosa,
toda num garavim de seda cor-de-rosa,
Como um beijo de luz, rescendia inocência…

CARDEAL GONZAGA, estranhando a palavra
Oh!

CARDEAL RUFO
Eu peço perdão se me excedo, Eminência,
Mas aquela mulher era um anjo dos céus!
Se Deus a pretendesse, eu desafiava Deus!
Ver um anjo a dizer-me – ó natureza cega! _
Versos de Calderon e de Lopo de Vega!
A representação foi sobre um pátio velho,
Todo armado à fidalga em damasco vermelho,
Num tapete real de capas de estudantes!
Num desfalecimento, escondendo uma lágrima:
Ai, o que eu sou agora! Ai, o que eu era dantes!
Quanta luz, quanto fogo a velhice nos rouba!_
Representaram não sei bem se a Niña Boba,
Um poemazinho leve onde a graça?
Nisto, em meio talvez da representação,
Ouvi ao pé de mim, dentre um bando folião
De escolares, dizer em voz rouca e sumida:
O rapto será logo, hem? Será à saída,
Na porta dos brasões. Quando a linda “bobinha”
Entrar na sua rica e leve cadeirinha,
Caíremos sobe ela, e…”Não ouvi mais nada.
Inda desembainhei meio palmo da espada,
Mas contive-me. ”Não. Logo é melhor” _ disse eu.
Quando acabou a peça era noite. Desceu
Uma tapeçaria. A cadeirinha, fora,
a porta dos brasões, para sua senhora,
Era um ninho infantil de lúcido brocado.
Perto, o bando escolar aguardava embuçado.
Ocultei-me também nas sombras da viela,
Desembainhei a espada, e. Nisto, assomou ela.
Diz-se: espada e anel, na mão em que estiver.
Mas sempre é forte a mão quando é linda a mulher!
Atirei-me de um salto, e em rápidos instantes,
Sozinho contra vinte e tantos estudantes,
Contra uma Faculdade inteira, expondo a vida,
A capa ao vento, a espada em punho, a pluma erguida,
Talhei, ensangüentei, feri, numa violência…
Esgrimindo, com o bastão, por sobre a mesa:
Assim! Assim!

Júlio Dantas
A CEIA DOS CARDEAIS ( Parte II )
Peça em um acto em verso, representada pela primeira vez
no antigo teatro D. Amélia, em 28 de Março de 1902.

Continuação ….

CARDEAL DE MONTMORENCY, defendendo
o serviço riquíssimo
Por Deus! È Sevres, Eminência.

CARDEAL RUFO, sentando-se, num grande
gesto fanfarrão

E se não os matei a todos, na verdade,
Foi p’ra não se fechar a Universidade!
CARDEAL GONZAGA, profundamente admirado

Sòzinho contra vinte! Uma luta sangrenta!

CARDEAL RUFO

Vinte? Trinta! Ou talvez, contando bem, quarenta!

CARDEAL DE MONTMORENCY

E então a cadeirinha?

CARDEAL RUFO
Ah! _ Desapareceu.
CARDEAL GONZAGA

E a cómica?
CARDEAL RUFO

Sei lá!

CARDEAL DE MONTMORENCY

Quê! Não a seguiu?

CARDEAL RUFO

Eu?
CARDEAL DE MONTMORENCY

Não tornou a ver?

CARDEAL RUFO, tristemente

Não. Nunca mais a vi.

Foi por isso que a amei, _ porque não a possuí!

CARDEAL DE MONTMORENCY

No se caso, Eminência, eu…

CARDEAL RUFO

Diga.

CARDEAL DE MONTMORENCY

Se o consente…

CARDEAL RUFO
Seguia a cadeirinha?

CARDEAL DE MONTMORENCY
Imediatamente.
E ao atingi-la, então, curvaria o joelho,
Tiraria o chapéu em grande estilo velho,
E prostrando-me junto à portinha doirada
De corpo ajoelhado e d’alma ajoelhada,
Diria, num olhar cheio de sonhos loucos:
“Senhora, perdoai bater-me… com tão poucos!”

CARDEAL RUFO
Bela frase!

CARDEAL DE MONTMORENCY

Não é?

CARDEAL RUFO
Pena não me ocorrer…
Com tristeza:

Agora é tarde já para eu lha dizer!

CARDEAL DE MONTMORENCY

Tinha espírito… _ Enfim, o amor, pensando bem
Não é só bravura, é o espírito também,
Essa força, essa chama, imperceptível quase,
Que é a alma do gesto e a nobreza da frase,
Qualquer coisa de fino, e flexuoso, e ardente,
Que nos faz ajoelhar irreflectidamente,
Perturba, vence, infiltra, e, mal afora à boca,
Veste de seda e oiro a confissão mais louca…
Que seria o amor sem espírito, Eminência?
Uma paixão brutal ou uma impertinência,
Sem pureza, sem tudo aquilo que resume
O coração num beijo e a alma num perfume!
Com uns punhos de renda, até a ofensa é linda!
Pode ser fina a espada; a frase é mais ainda:
Uma escola subtil de esgrima delicada…
Procura o coração, a frase, como a espada,
E desfaz-se, ao ferir, em pedras preciosas,
Como os raios de Sol quando ferem as rosas…
Se ao homem vence a espada e se é belo vencer,
O espírito faz mais, _ porque vence a mulher!
No meu tempo, no tempo em que amei e vivi,
Fui o que ainda hoje são os de Montmorency,
O grande espirituoso, o leão da nobreza,
Cabeleira em anéis e gola à genovesa, Passeando o meu orgulho e o meu bastão solene
Pelos vastos salões da Duquesa de Maine.
Ah! Como já vai longe! _ Um dia, o velho Philidor
Dedilhava no cravo um certo minuete,
Um mimo, o que há de mais século XVII…

Querendo recordar-se e cantando:
Lá-ri la-ra, la-ri…
Suspendendo, tristemente:
Já não me lembro bem…
Tudo passa!
Tentando de novo recordar-se:

Lá-ri-la… _ Nesse instante, alguém,
Uma bela mulher que eu já tinha encontrado
Nas ruas de Versalhe, em seu coche encontrado
A embaixatriz da Áustria, uma deusa, um assombro,
Poisou, num doce gesto, a mão sobre o meu ombro,
E disse numa voz desdenhosa: “Marquês,
Detesto-os”. Sorri. Nisto, segunda vez:
“Aborreço-os” Ri ainda. Ah, Eminências!
Uma mulher bonita a dizer insolências
É a coisa mais galante e mais deliciosa
Que pode imaginar-se. É como se uma rosa
Soltasse imprecações, vermelha e melindrada,
Contra as asas de Sol de uma abelha doirada…
Nisto, terceira vez: “Marquês, tenho-lhe horror”.
Já não ri. Junto ao cravo, o velho Philidor
Tocava o seu minuete ingénuo e palaciano…

Querendo ainda lembrar-se:

La-ri, la-ra, la … Não… La-ri…
Numa expressão dolorosa:
Há já tanto ano!
Não me lembro… A velhice!

Vendo de repente o cravo, e erguendo-se:
Ah, talvez, sim… Talvez
O consiga tirar neste cravo holandês.
Ferindo as teclas com a mão esquerda, de pé, e conti-
nuando a falar para os dois cardeais, enquanto
vai tocando:

La-ri, la-ra… _ então, decidi-me, Eminências.
Compus a cabeleira, e em duas reverências.
O pé atrás, a mão na espada, à moda antiga,
Curvei-me ante essa bela e fidalga inimiga,
E disse: “A sua mão. Venha minha senhora.
Não me detestará daqui a meia hora” _
Dançámos o minuete. Ela _ era singular! _
Dava-me a impressão de uma renda a dançar,
Uma renda ligeira, um Saxe transparente
Onde se iam poisar, pertubadoramente,
Como um enxame de oiro, espirituoso e leve,
Desde a breve ironia ao epigrama breve,
A frase à Marivanx, ardente e complicada,
O eterno quase tudo _ apenas quase nada_
O espírito-mesura, o sorriso eloqüência…

Ao CARDEAL RUFO, que está mais próximo:
Não sei precisamente o que disse, Eminência,
Mas devia ter sido um requinte de graça,
Galanteio que voa ou perfume que passa,
Poema cor-de-rosa, apaixonado e brando,
Que nos dá a ilusão de que se diz sonhando,
Eloquência d’amor, que perturba a mulher,
E vence quando ajoelha, e beija quando fere!

La-ri-la… Terminou o minuete, por fim.
Meia hora depois, nas sombras do jardim,
A embaixatriz de Áustria, apaixonada, louca,
Unindo à minha boca a pequenina boca,
Dizia-me, a sorrir _ “Como o adoro, Marquês!”
_ O espírito vencera ainda mais uma vez.
E enquanto Philidor, junto ao cravo…

Tocando, à procura, com ansiedade:
Não sei…
La-ri-la…

Depois, numa expressão de súbita alegria, sentando-se
ao cravo, a tocar:

O minuete! Achei! Achei! Achei!

La-ri-ra, la-ri-ra ,la-ra…

CARDEAL RUFO , erguendo-se e aproximando-se
do CARDEAL DE MONTMORENCY
Vossa Eminência
Perdoa-me, talvez, mais uma impertinência…

CARDEAL DE MONTMORENCY , levantando-se do cravo
Era belo, o minuete!

CARDEAL RUFO, sorrindo

É que, para vencer
Nesse jogo floral uma simples mulher
Parece-me demais a sua meia hora…

CARDEAL DE MONTMORENCY
Oh! Pois acha, Eminência?

CARDEAL RUFO
O espírito… demora!
Trinta e tantos brigões, fortes e resolutos,
Venci eu, a poder de espada, em dois minutos!

CARDEAL DE MONTMORENCY, ao CARDEAL RUFO

Seguisse a Niña Boba… A Eminência veria…
Passava a meia hora e não a venceria!

Ao CARDEAL GONZAGA, que pensa, em êxtase:

A Eminência que diz?

CARDEAL RUFO, acercando-se também
do CARDEAL GONZAGA

Em que pensa, cardeal?

CARDEAL GONZAGA, como quem acorda, os olhos cheios
de brilho, a expressão transfigurada

Em como é diferente o amor em Portugal!
Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento…
é o amor coração, é o amor sentimento.
Uma lágrima… Um beijo… Uns sinos a tocar…
Uma parzinho que ajoelha e que vai se casar.
Tão simples tudo! Amor, que de rosas se inflora:
Em sendo triste canta, em sendo alegre chora!
O amor simplicidade, o amor delicadeza…
Ai, como sabe amar, a gente portuguesa!
Tecer de Sol um beijo, e, desde tenra idade,
Ir nesse beijo unindo o amor com a amizade,
Numa ternura casta e numa estima sã,
Sem saber distinguir entre a noiva e a irmã…
Fazer vibrar o amor em cordas misteriosas,
Como se em comunhão se entendessem as rosas,
Como se todo o amor fosse um amor sòmente…
Ai, como é diferente! Ai, como é diferente!

CARDEAL RUFO

Também vossa Eminência amou?
CARDEAL GONZAGA
Também! Também!
Pode-se lá viver sem ter amado alguém!
Sem sentir dentro d’alma – ah, podê-la sentir! _
Uma saudade em flor, a chorar e a rir!
Se amei! Se amei! _ Eu tinha uns quinze anos, apenas.
Ela, treze. Uma amor de crianças pequenas,
Pombas brancas revoando ao abrir da manhã…
Era minha priminha. Era quase uma irmã.
Bonita não seria… Ah, não… Talvez não fosse.
Mas que profunda olhar e que expressão tão doce!
Chamava-lhe eu, a rir, a minha mulherzinha…
Nós brincávamos tanto! Eu sentia-a tão minha!
Toda a gente dizia em pleno povoado:
“Não há noiva melhor para o senhor morgado,
Nem em capela antiga há santa mais santinha…”
E eu rezava, baixinho: “É minha! É minha! É minha”
Quanta vez, quanta vez, cansados de brincar,
Ficávamos a olhar um para o outro, a olhar,
Todos cheios de Sol, ofegantes ainda…

Numa grande expressão de dor:

Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda…
E, uma noite, a minha alma, a minha luz, morreu!

Numa revolta angustiosa:

Deus, se ma quis tirar, p’ra que foi que ma deu?
Para quê? Para quê?

CARDEAL DE MONTMORENCY, ao vê-lo
erguer-se, amparando-o:

Oh! Eminência…

CARDEAL RUFO, curvando-se também para o amparar,
comovido:
Então…

CARDEAL GONZAGA

Ai! Pois não via, Deus, que eu tinha coração!

CARDEAL RUFO

Eminência

CARDEAL GONZAGA, caindo sobre a cadeira, a soluçar

Não via! Ah!, não via! Não via!
Julgou que de um amor outro amor refloria,
E matou-me… E matou-me!

CARDEAL DE MONTMORENCY

Eminência…

CARDEAL GONZAGA

Afinal,
Foi esse anjo, ao morrer, que me fez cardeal!
E eu hoje sirvo a Deus, _ a Deus, que ma levou…
CARDEAL RUFO, a DE MONTMORENCY, limpando
uma lágrima furtiva,
enquanto as onze horas soam no Vaticano

Foi ele, de nós três, o único que amou.
(Cai o pano lentamente).

Rubens Pontes

e jornalista, poeta,

escritor

– Passos, saltos & queda

livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

 

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