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quinta, 19 de abril de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Canto de Núpcias, de Océlio Medeiros; Fraternidade, de Newton Braga

O que há de comum entre

Cachoeiro de Itapemirim e Xapuri?

 

“Fotogarfada” do Valerio Depollo: Pico do Itabira, um dos maiores símbolos de Cachoeiro de Itapemirim, “a capital secreta do mundo”.

 

Xapuri – A cidade de Xapuri, no Estado do Acre, hoje com 16 mil habitantes, surgiu e cresceu penosamente

numa área até então dominada por tribos dos xapuris que ali viviam desde a chegada de Cabral ao Brasil.

Cachoeiro do Itapemirim, cidade capixaba, hoje com 211 mil habitantes, surgiu e cresceu numa região dominada por índios da tribo Puri.

O que, no entanto, as duas cidades têm em comum é a concentração de figuras ilustres que, em uma e em outra, marcam destacada presença nos anais da vida brasileira.

Chega a surpreender a proporção entre população e personalidades que, nascidas na pequena cidade da Amazônia, conquistaram posição de relevo nas várias áreas do pensamento brasileiro.

Em Cachoeiro do Itapemirim sucede o mesmo fenômeno histórico. Embora muito mais populosa do que Xapuri, a cidade chama atenção pelo número de figuras que se projetaram principalmente nos meios das artes e da cultura brasileira.

Nasceram em Xapuri Chico Mendes, o jornalista Armando Nogueira (acima, à direita), o médico Adib Jatene, os políticos Marina Silva,

Jarbas Passarinho, Tião Vianna, Enéas Carneiro (“Meu nome é ´Enéas”) o comediante José Vasconcelos,

Glória Peres, João Donato (acima, à esquerda), Iolanda Fleming, a primeira mulher a governar um Estado brasileiro, os poetas Océlio de Medeiros, Celio Khoure, Nei Lopes (à direita).

Cachoeiro – Cachoeiro do Itapemirim se orgulha de seus filhos ilustres, entre eles Roberto Carlos, Sérgio Sampaio, Noemi Cavalcanti,

Carlos Imperial, Raul Sampaio, Charles Fricks , Anderson Freire, o arquiteto Carlos Nemer, Darlene Gloria, Jece Valadão, a primeira naturalista brasileira Luz del Fuego, o nosso maior cronista Rubem Braga, Newton Braga (foto dos dois à esquerda, de 1932), as “meio” cachoeirenses Danuza e Nara Leão…

É assim reconhecendo que o Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e o colunista prestam sua homenagem às duas cidades l

selecionando como poemas para saudar o primeiro sábado de outono, criações de poetas de Xapuri e de Cachoeiro do Itapemirim.

CANTO DE NÚPCIAS

Océlio de Medeiros

Fui buscar nas constelações as mais lindas estrelas
para o meu manto de mago.
Fui buscar nas felpudas nuvens os macios chumaços
para fazer teu colchão.
Fui buscar no firmamento os retalhos mais azuis
para fazer teu lençol.
Fui ao fundo do mar buscar os mais suaves musgos
para o teu travesseiro.
Trouxe à superfície calma do oceano as ondas
para balançar teu sono.
Retirei da garganta dos uirapurus o canto
para eu te fazer dormir.
É da seda das brumas o teu véu de noiva, que eu
costurei com finos fio do luar desfeito.
Era da alva corola das orquídeas raras a tua grinalda
de pétalas que eu tirei sorrindo.
Por fim pedi à noite um pouco do seu escuro
para envolver a alcova de sutil penumbra.
Pedi ao tempo que parasse nesse instante
e o tempo parou,
parou,
parou,
até que amanheceu.

* * *

Eu sem meu manto de mago,
E tu despida de brumas,
Nós dois como crianças num colchão de nuvens,
num lençol de algas, nossas cabeças sonhando sobre
musgos.
E ambos despertamos para a vida!

FRATERNIDADE (Newton Braga)

É tua esta cantiga, meu irmão mendigo.
Meu irmãozinho jornaleiro, bom dia.
E tu, varredor de ruas, ouve esta canção.
Carvoeiro, saxofonista, guarda-chaves:
– é esta a oração da minha solidariedade.

Não, meus irmãos, não é comício eleitoral,
é o desabafo dessa onda de ternura que me invade,
e transborda pelo olhos, ao pensar nas vossas vidas miseráveis,
em vossas vidas anônimas em que ninguém se fixa.

Bombeiro, que despertas precípite para ir ao fogo;
guarda-noturno que dormitas de pé, na noite fria;
linotipista que passas as madrugadas martelando as colunas dos jornais,
operário que conservas o calor no forno da olaria;
sertanejo que capinas aos meio-dias escaldantes:
eu compreendo, e, porque compreendo, exalto o vosso heroísmo perdido,
a vossa resignação quase bovina,
esse jeito de sofrer a que já vos acostumastes.
Eu sinto as vossas lágrimas, meus irmãos desgraçados,
e me embriago convosco, e vou convosco às macumbas e aos cangarês,
buscar um remédio para a minha vida e para a minha dor.

Meus irmãos sem nome, meus irmãos de vida obscura e desconhecida,
tendes felicidades que eu não tenho:
tendes um deus que vos faz crer nele,
tendes uma alma sem ambições desvairadas,
tendes esperanças… tendes ilusões…

É só o que eu tenho, e que vós não tendes,
– que consolo triste! –
é esta sensibilidade dolorosa que se comove
com misérias que às vezes mesmo os que as carregam desconhecem,
esta sensibilidade que é uma antena delicadíssima,
captando pedaços de todas as dores do mundo,
e que me fará morrer de dores que não são minhas.

Rubens Pontes

é jornalista, radialista,

escritor, poeta

– Passos, saltos & queda

livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

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