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quinta, 19 de abril de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Poema da Quaresma, de Frei Beto

 

Sábado de Aleluia, o Sabbatum Sancto, é para os cristãos o último dia da Semana Santa,

o dia posterior à crucificação e morte de Jesus Cristo.

Na ortodoxia é o Grande Sabá, dia em que Jesus descansou, o Sábado de Alegria para coptas e etíopes.

O Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e este colunista reverenciam e se irmanam

ao mesmo sentimento cristão que registra o martírio de Jesus Cristo, assumindo os pecados do mundo e morrendo na cruz para redenção da humanidade.

Charge: 

https://www.humorpolitico.com.br/tag/malhacao-do-judas/

Neste Sábado de Aleluia, recorremos a Frei Beto publicando, como sugestão de leitura, seu poema com reflexões sobre o sensível tema.

Poema da Quaresma

Frei Beto

Entro nessa Quaresma sem fantasia, disposto às abstinências que resgatam, no mais íntimo de mim mesmo, a minha verdadeira identidade.

Calarei a língua ferina e não macularei a fama alheia exposta em público no varal de minhas cordas vocais. Não darei ouvidos a inconfidências, nem ao ruído ensurdecedor das palavras vãs de quem só escuta a própria voz. Fecharei o olhos para ver melhor e abrirei as janelas à revoada dos anjos. Contemplarei as montanhas ocas de minha terra e derramarei uma lágrima por seus úteros arrancados e sonegados ao meu povo.

Nesta Quaresma, riscarei de meu dicionário o vocábulo competitividade e com aquarelas de utopias gravarei no coração solidariedade. Irei ao encontro de quem ainda luta por direitos animais: comer, beber, educar a cria e abrigar-se das intempéries. Só assim costurarei minha humanidade esgarçada.

Jejuarei da ânsia consumista e ofertarei meu supérfluo tão necessário ao próximo. Abrirei a janela do carro e afagarei as crianças de rua, filhos de minha imobilidade frente a tantas injustiças. Pagarei, com juros, a minha dívida social.

Jean-Baptiste Debret, artista francês, que esteve no Brasil nos anos de 1816 a 1831.

Farei de Jesus parceiro de aventuras e deixarei que o seu Espírito engravide o meu. Buscarei o silêncio orante e meditarei para inebriar-me da espiritualidade do conflito.

Adotarei o Sermão da Montanha como estatuto pessoal e assim acertarei meus passos nas trilhas da vida. Arrancarei toda erva daninha – ciúme, inveja, ira – do canteiro de meus amores e cultivarei copas frondosas de quaresmeiras coloridas de ternura. Serei perdulário com o bom humor e espalharei alegria como o ar que nos é dado a respirar.

Nesta quaresma, participarei da Campanha da Fraternidade na defesa da vida e contra o Tráfico de Seres Humanos. Desfraldarei a bandeira de minha indignidade e revelarei esperanças que, olhos no futuro, me fazem acreditar num belo horizonte.

Peregrino, solitário e solidário, irei às fontes do Transcendente. Ao encontrar meu próprio poço, mergulharei como um menino em suas águas profundas, até que o Pai de Amor me acolha em seus braços, dando-me de beber o vinho pascal do homem novo e da mulher nova.

 Frei Betto

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