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quinta, 16 de agosto de 2018

Aqui Rubens Pontes: O capitalismo dominante e a verdade sobre a morte de Jesus

“Jesus não morreu pelos

nossos pecados”.

 

Jesus morreu porque

confrontou os poderosos

do Templo de Jerusalém,

temerosos de que seus

interesses econômicos

fossem prejudicados.

 

Meu amigo Dante Pola, de Vitória/ES, encaminhou-me para leitura sugestão do padre Alberto, da COMAN, um artigo capaz de gerar perplexidade mas também contendo uma análise sem paixão dos reais motivos que levaram à morte o Filho de Deus.

O artigo foi publicado no Boletim Caminho Pra Casa da Arquidiocese de Portoviejo, Equador, escrito por um dos maiores biblistas vivos, o frade italiano Alberto Maggi (à direita),

contestando duas “verdades” tradicionalmente afirmadas pela nossa catequese:

1) Jesus teria sido morto “pelos nossos pecados”;
2) e essa seria “a vontade de Deus”.

Segundo o biblista, estas afirmações são insustentáveis à luz de um exame realista e honesto dos textos bíblicos. Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel.

E Jesus não inaugurou o tempo da culpa, mas o tempo da misericórdia e da vida plena para os filhos e filhas de Deus.

“Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados”. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da

cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

“Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura”. Sendo

assim, olhando para o Crucificado, com aquele corpo torturado, ferido, riscado com a marca de correntes e cheio de coágulos de sangue, com aqueles pregos que lhe perfuram a carne, com aqueles espinhos presos

na cabeça, é inevitável que qualquer um se sinta culpado … “O Filho de Deus acabou no patíbulo pelos meus pecados”. Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da

psique humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios psicológicos.

No entanto, basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e,

sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas.

A morte de Jesus não se deve a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (de fato, no judaísmo havia muitas correntes espirituais, que competiam entre si, mas que eram

toleradas pelas autoridades), e sim para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos: um Pai que nunca pede a

seus filhos, mas que sempre dá.

A próspera economia do Templo de Jerusalém, que o tornava o banco mais forte em todo o Oriente Médio, era sustentada pelos impostos, pelas ofertas e, acima de tudo, pelos rituais que tinham como finalidade obter,

mediante pagamento, o perdão de Deus. Era todo um comércio de animais, de peles, de ofertas em dinheiro, grãos e outros frutos da terra… tudo para a “honra de Deus”… e os bolsos dos sacerdotes, que nunca ficavam

saturados. Como disse Isaias: “… cães vorazes, que desconhecem a saciedade; são pastores sem entendimento; todos seguem seu próprio caminho, cada um procura a vantagem própria” (Is 56, 11).

Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica em Israel, veem Jesus perdoar os pecados a um paralítico, dizem: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3).

E, apelando para o ensinamento “infalível” da Lei, imediatamente sentenciam que Jesus deve morrer, pois Deus ordena que os blasfemos devem ser mortos (Lv 24,11-16).

Está escrito em João 2:13 a 19: – “Estava próxima a páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Achou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e também os cambistas sentados; e tendo feito um azorrague de cordas, expulsou a todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio”.

A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas, na verdade, visa salvaguardar a economia. Para receber o perdão dos pecados, de fato, o pecador tinha que ir ao Templo e oferecer aquilo que o tarifário das culpas prescrevia. De acordo com a categoria do pecado, o tarifário listava detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos (à esquerda), ou outras coisas deveriam ser oferecidas em reparação pela ofensa feita ao Senhor Deus.

Jesus, pelo contrário, perdoa gratuitamente, sem convidar o perdoado a subir ao Templo para levar a sua oferta. “Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas quatro palavras

que, no entanto, ameaçavam desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao Templo, levando ofertas, nem de submeter-se aos ritos de purificação. Nada disso! Bastava perdoar para ser imediatamente perdoado…

O alarme cresceu, os sumos sacerdotes, os escribas, os fariseus e os saduceus ficaram todos inquietos, sentiram o chão afundar sob seus pés, até que, em uma reunião dramática do Sinédrio, o mais alto órgão jurídico do país, que representava o sistema dominante (cena à direita), o sumo sacerdote Caifás tomou a decisão:

– “Jesus deve ser morto”; e não apenas ele, mas também todos os seus discípulos; porque perigoso não era apenas o Nazareno, mas a sua doutrina, e enquanto houvesse apenas um seguidor capaz de propagá-la, as autoridades não dormiriam tranquilas (“Se deixarmos ele continuar, todos acreditarão nele.“ [Jo 11,48]).

Para convencer o Sinédrio da urgência de eliminar Jesus, Caifás não se referiu a temas teológicos, espirituais. Não! O sumo sacerdote conhecia bem os seus pares; por isso, ardilosamente, pôs o acento, com

veemência, naquilo que mais os preocupava: o medo que seus interesses econômicos fossem prejudicados. (“Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação

toda? ” [Jo 11,50]).

Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus; morreu pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interferisse em seus interesses, até mesmo o

Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38).

O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a ganância e a cobiça, que tornam os homens completamente refratários à ação divina.

Alberto Maggi, biblista italiano, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontifícias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversos livros, dentre os quais: “A loucura de Deus: o Cristo de João” e “Nossa Senhora dos heréticos”.

Francisco Cornélio, o tradutor, sacerdote e biblista brasileiro, é professor no curso de Teologia da Faculdade Diocesana de Mossoró (RN). Fez seu bacharelado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma. Atualmente está em Roma novamente para o doutorado no Angelicum (Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino), onde fez seu mestrado.

Rubens Pontes é jornalista,
radialista, poeta,
escritor

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