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quinta, 19 de abril de 2018

Rodrigo Mello Rego: As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica / O amor e o desejo, de Ariano Suassuna

  • Senhor Editor-Chefe

Não apenas para acompanhar as edições do Portal Don Oleari na expectativa da publicação desta coluna, abro religiosamente, todos os dias, este instrumento de divulgação por ver nele muitas das melhores coisas que ocorrem no cotidiano da vida capixaba.

(É o mesmo que faço, buscando inspiração, ouvindo essa esplêndida Rádio Clube da Boa Música).

Foi assim que, ainda na semana que passou, li com interesse a coluna do Rubens Pontes – Aqui Rubens Pontes: Meu Poema de sábado, nesse linki aí:  http://www.donoleari.com.br/2018/02/17/aqui-rubens-pontes-meu-poema-de-sabado-noturno-de-ariano-suassuna/ – que abordou a poesia de Ariano Suassuna, intelectual por mim reverenciado como um dos mais brilhantes escritores do final do século passado.

Um quase conterrâneo que me faz inflar de orgulho.

Pois Ariano Suassuna confirma, também ele, católico convertido e praticante, minha tese de que o erotismo não é pecado capital, mas uma forma de expressão praticada por escritores e poetas, desde a Antiguidade.

Em sua obra editada postumamente, “Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores”, o extraordinário pensador paraibano faz registros com altíssimo nível de erotismo, como sua reação diante da cena do jumento penetrando uma égua (veja vídeo lá embaixo – na foto à direita é jumento na jumenta):

– Meu Fálus cresceu e engrossou, pulsando e erguendo-se monstruoso, por si mesmo. E de-repente, sem qualquer alvo concreto contra o qual se lançasse, fez com que, em sincronia com o orgasmo do jumento, um vulcão-em-chamas em mim entrasse em erupção, lançando fogo, escuma e lava para fora e fazendo aflorar obscuramente, das profundezas, a substância do próprio mistério da vida”.

Em outro trecho do livro, escreveu ele:

“… os olhos do macho, embaçosos e quebrado-febris, contrastavam mais ainda com o Fálus desarmonioso e desproporcionado, que já se lançara fora da bainha, grosso, negro, longo e endurecido, túrgido pelo desejo pulsando ao ritmo do sangue espesso que o dilatava”.

Suassuna parece obcecado pelo sexo praticado por animais, como se lê na cena entre uma cabra e um bode, tratado com muita crueza:
“… colocou-se atrás da cabra e, achando logo o caminho que devia seguir, lambeu-lhe a vulva – a língua tesa, rápida, escura, saiu-lhe da boca que aberta… deixava escapar um sopro ardente, embriagador e bruto.”

“…o fálus ereto do bode-pardo achou a fenda que buscava e deslizou, mergulhando fundo, de vulva umedecida adentro”.

Em outro capítulo do alentado livro (2 volumes, 1.012 páginas) lê-se:

“… de repente, no sombrio daquele recanto, a Menina se deitou no chão, erguendo o vestido, e eu pude ver sua vulva, que já começava a se emplumar…. ela pegou a minha mão e apertou-a sobre a vulva. Desabrochavam botões de rosa ao calor daquele sol misterioso, E ainda hoje, no momento em que escrevo, sinto palpitar sob minha mão aquela lindeza morna que arrebitava em penugem e onde se podia talvez – quem sabe? – entrever o segredo do Mundo”.

Em outro trecho do livro – e com ele encerro esses relatos para não me alongar demais – o mago Ariano Suassuna, escrevendo sobre episodio de confronto entre dois cantadores, marcou:

– “Seu Rufino chegou no Aracati e, encontrando um Caboclo numa praça, conheceu que o cabra era de raça e lhe disse:

– Meu negro, chegue aqui.

Conversaram um pouquinho por ali, e, com pouco, Rufino estava nu. Um Bicho parecido com Muçu, só entrando e saindo do Bufant, não foi nada de mais interessante: era Pedro Rufino dando o cu”.

E com isso dou por encerrada minha coluna de hoje, não sem, antes, deixar também a marca do poeta, recolhida no mesmo livro:

O amor e o desejo

Eis afinal a Rosa, a encruzilhada onde moras,
oh Ruiva, oh meu desejo!
Emerges a meu Sangue malfazejo,
Onça do sonho, fonte coroada.
Ao garço olhar, à vista entrecerrada,
Um sorriso esboçado, mas sem pejo.
Teu pescoço é um Cisne sertanejo,
Teus peitos Estrelas desplumadas.
Em baixo, a Dália ruiva, aberta ao Dardo.
O manto, a rosa, a púrpura, a Coroa.
E brilha, ao fogo dessa Chama-parda,
A Coroa-de-frade, a Rosa-Cardo,
Abandonada às onças, às leoas
“e ao cio escuso das Panteras magras”.

Rodrigo Mello Rego.

Rodrigo Mello Rego

é jornalista e Mestre em Estudos Literários.

Pesquisador de literatura erótica. – O primeiro vídeo é o jumento na égua. O segundo, o fora de série Quarteto Armorial, fruto também dos movimentos de Suassuna na cena cultural do Norte/Nordeste.

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