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tera, 29 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Prosopopeia, de Bento Teixeira

Bento Teixeira, cuja origem é motivo de controvérsias, teria nascido em Olinda em 1561, ou, segundo outros, na cidade do Porto, mas o fato

é que, na então colonia portuguesa, plantou o marco da literatura barroca com seu poema épico “Prosopopeia”, publicado em 1601.

Para nos determos no espaço e no tempo, foi em 1 de junho de 1535, que Vasco Fernandes Coutinho assumiu a Capitania do Espírito Santo,

ocupando o território até então conhecido, desde o ano de 1519 , como “Arrecifes y Baxos”, tempo em que as terras ainda virgens,

pelo Tratado de Utrecht, pertenciam a quem as ocupasse – o Uti Possidetis.

O que a Coluna pretende, com esta sucinta descrição, é mostrar como a poesia tem expressado, ao longo do tempo e do espaço,

os sentimentos e as emoções do homem, não importando seu nível de instrução ou de cultura.

Embora de reduzido valor estético, “Prosopopeia”, com 94 estrofes laudatórias, possui significativa importância cronológica,

por ter sido a primeira produção literária composta no Brasil.

Invertendo a anotação da ilustração à esquerda: Bento Teixeira: 1561 – 1600; Gregório de Matos: 23 de dezembro de 1636, Salvador, Bahia – 26 de novembro de 1696, Recife, Pernambuco.

É assim, meio provocativos para os eventuais leitores da coluna, que o Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e este colunista

publicam trechos mais expressivos do instigante poema de Bento Teixeira.

Bento Teixeira, denunciado à Inquisição pela esposa Filipa Raposa como judeu, refugiou-se no Mosteiro de São Bento,

em Olinda, depois de assassinar a mulher, por ele acusada de adultério.

Recluso, escreveu “Prosopopeia”, por muitos apontada como um poema épico na mesma linha dos “Lusíadas”, de Camões.

Mantive o poema na grafia original. O livro “Em torno do poeta Bento Teiseira” está à venda no Mercado Livre por R$ 7,00 – Rubens Pontes”.

Prosopopéia

1 Cantem Poetas o Poder Romano,
sobmetendo Nações ao jugo duro;
o Mantuano pinte o Rei Troiano,
descendo à confusão do Reino escuro;
que eu canto um Albuquerque soberano,
da Fé, da cara Pátria firme muro,
cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,
pode estancar a Lácia e Grega lira.

2 As Délficas irmãs chamar não quero,
que tal invocação é vão estudo;
aquele chamo só, de quem espero
a vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
quanto fora sem ele tosco e rudo,
que por razão negar não deve o menos
quem deu o mais a míseros terrenos.

3 E vós, sublime Jorge, em quem se esmalta
a Estirpe d’Albuquerques excelente,
e cujo eco da fama corre e salta
do Carro Glacial à Zona ardente,
suspendei por agora a mente alta
dos casos vários da Olindesa gente,
e vereis vosso irmão e vós supremo
no valor abater Querino e Remo.

4 Vereis um sinil ânimo arriscado
a trances e conflitos temerosos,
e seu raro valor executado
em corpos Luteranos vigorosos.
Vereis seu Estandarte derribado
a