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segunda, 15 de outubro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Prosopopeia, de Bento Teixeira

Bento Teixeira, cuja origem é motivo de controvérsias, teria nascido em Olinda em 1561, ou, segundo outros, na cidade do Porto, mas o fato

é que, na então colonia portuguesa, plantou o marco da literatura barroca com seu poema épico “Prosopopeia”, publicado em 1601.

Para nos determos no espaço e no tempo, foi em 1 de junho de 1535, que Vasco Fernandes Coutinho assumiu a Capitania do Espírito Santo,

ocupando o território até então conhecido, desde o ano de 1519 , como “Arrecifes y Baxos”, tempo em que as terras ainda virgens,

pelo Tratado de Utrecht, pertenciam a quem as ocupasse – o Uti Possidetis.

O que a Coluna pretende, com esta sucinta descrição, é mostrar como a poesia tem expressado, ao longo do tempo e do espaço,

os sentimentos e as emoções do homem, não importando seu nível de instrução ou de cultura.

Embora de reduzido valor estético, “Prosopopeia”, com 94 estrofes laudatórias, possui significativa importância cronológica,

por ter sido a primeira produção literária composta no Brasil.

Invertendo a anotação da ilustração à esquerda: Bento Teixeira: 1561 – 1600; Gregório de Matos: 23 de dezembro de 1636, Salvador, Bahia – 26 de novembro de 1696, Recife, Pernambuco.

É assim, meio provocativos para os eventuais leitores da coluna, que o Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e este colunista

publicam trechos mais expressivos do instigante poema de Bento Teixeira.

Bento Teixeira, denunciado à Inquisição pela esposa Filipa Raposa como judeu, refugiou-se no Mosteiro de São Bento,

em Olinda, depois de assassinar a mulher, por ele acusada de adultério.

Recluso, escreveu “Prosopopeia”, por muitos apontada como um poema épico na mesma linha dos “Lusíadas”, de Camões.

Mantive o poema na grafia original. O livro “Em torno do poeta Bento Teiseira” está à venda no Mercado Livre por R$ 7,00 – Rubens Pontes”.

Prosopopéia

1 Cantem Poetas o Poder Romano,
sobmetendo Nações ao jugo duro;
o Mantuano pinte o Rei Troiano,
descendo à confusão do Reino escuro;
que eu canto um Albuquerque soberano,
da Fé, da cara Pátria firme muro,
cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,
pode estancar a Lácia e Grega lira.

2 As Délficas irmãs chamar não quero,
que tal invocação é vão estudo;
aquele chamo só, de quem espero
a vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
quanto fora sem ele tosco e rudo,
que por razão negar não deve o menos
quem deu o mais a míseros terrenos.

3 E vós, sublime Jorge, em quem se esmalta
a Estirpe d’Albuquerques excelente,
e cujo eco da fama corre e salta
do Carro Glacial à Zona ardente,
suspendei por agora a mente alta
dos casos vários da Olindesa gente,
e vereis vosso irmão e vós supremo
no valor abater Querino e Remo.

4 Vereis um sinil ânimo arriscado
a trances e conflitos temerosos,
e seu raro valor executado
em corpos Luteranos vigorosos.
Vereis seu Estandarte derribado
aos Católicos pés vitoriosos,
vereis em fim o garbo e alto brio
do famoso Albuquerque vosso Tio.

5 Mas em quanto Talia no se atreve,
no Mar do valor vosso, abrir entrada,
aspirai com favor a Barca leve
de minha Musa inculta e mal limada.
Invocar vossa graça mais se deve
que toda a dos antigos celebrada,
porque ela me fará que participe
doutro licor melhor que o de Aganipe.

6 O marchetado Carro do seu Febo
celebre o Sulmonês, com falsa pompa,
e a ruína cantando do mancebo,
com importuna voz, os ares rompa.
Que, posto que do seu licor não bebo,
à fama espero dar tão viva trompa,
que a grandeza de vossos feitos cante,
com som que Ar, Fogo, Mar e Terra espante

Rubens Pontes
é jornalista,
poeta, escritor

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

Pitaco do Oleari: peço licença ao autor da requintada coluna para uma “licença editorial”. Como cita ele entre os principais barrocos brasileiros o baiano Gregório de Matos, permito-me complementar seu belo trabalho com este vídeo. É uma magnífica apresentação em que Caetano Veloso musicaliza os dois primeiros versos de “Triste Bahia”, do contestador Gregório de Matos. Para este escrevinhador de bobagens pelaí, uma das “obras primas” do mano Caetano (Oswaldo Oleari).

 

 

 

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