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domingo, 20 de maio de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Ao calor da lareira, de Olegário Mariano

 

Com a presunção dos meus 17 anos, já com alguns contos e poemas, que seriam hoje descartados,

publicados em jornais de Belo Horizonte, argui em debate escolar proposto em sala de aula pelo professor de literatura,

a superioridade intelectual de dois nomes – um ficcionista e um poeta – a meu ver insuperáveis: Herman Melville e Olegário Mariano.

A saga do capitão Acab na caça à baleia branca que arrancara uma de suas pernas, narrada no livro “Moby Dick”, era a meu ver um dos maiores clássicos da literatura mundial (aliás, tantos anos decorridos e continuo mantendo a mesma visão).

Olegário Mariano era então o meu poeta preferido, considerado por mim superior ao parnasiano Olavo Bilac, ao gongórico Castro Alves, ao clássico Casimiro de Abreu.

O poeta pernambucano nasceu em Recife, em março de 1889, iniciando sua carreira no campo da literatura jovem ainda.

Em 1938, em concurso promovido pela revista “Fon Fon”, foi eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros”,

titulo que já fora outorgado a Olavo Bilac. Em 1926, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.

O Portal Don Oleari e a Rádio Clube da Boa Música, solidariamente, aplaudiram a escolha de um belíssimo

e sensível poema de Olegário Mariano para ocupar a coluna deste sábado: “Ao calor da Lareira”.

O livro “Últimas Cigarras” transformou Olegário Mariano numa celebridade. Daí veio o epíteto de “poeta das cigarras”. À direita, Olegário Mariano (centro) no lançamento do livro.

Foi a  mais editada de todas as suas coletâneas,, com seis edições: 1915, primeira; 1916, segunda; 1920, terceira; 1924, quarta (única a receber a rubrica aumentada); 1931, quinta; 1950, sexta e definitiva.

Toda uma vida de poesia – vols. I e II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957 (Rubens Pontes).

AO CALOR DA LAREIRA

Olegário Mariano

Mesmo só, quando ao pé do fogo da lareira,
Ponho-me a recordar o que fui e o que sou,
A minha sombra – a eterna companheira
Que em dias bons e maus sempre me acompanhou,
Fica perto de mim de tal maneira
Que não parece sombra. É alguém que ali ficou.

Somos dois. Cada qual mais triste e mais calado.
Anda lá fora o luar garoando no jardim…
Tenho pena da sombra imóvel ao meu lado
Possuída da expressão de um silêncio sem fim.
E recordo em voz alta o meu tempo passado
E a sombra chega mais para perto de mim,

Ah! Quem me dera ter um bem que se pareça,
Que lembre vagamente outro que longe vai:
As mãos de minha Mãe sobre minha cabeça
O consolo de amigo e a fala do meu Pai.

E antes que a noite passe e alma se enterneça
Abro a janela e espio a lua que se esvai…
Qual! É inútil. Por mais que esta lembrança esqueça
Uma lágrima cresce em meus olhos e cai…

Deus há de permitir que eu adormeça
Com as mãos de minha Mãe sobre a minha cabeça
Ouvindo a fala comovida do meu Pai.

Rubens Pontes

é jornalista,

poeta, escritor

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:

https://rubenspontes.com.br

Duas parcerias de Olegário Mariano com Joubert de Carvalho.

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