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quarta, 14 de novembro de 2018

Luiz Trevisan: O paraíso possível

 

Casal comprou um daqueles pacotes turísticos com destino ao balneário de Punta Cana e partiu em busca de alguns dias no “paraíso” terrestre prometido.

Sol ameno, mar caribenho, o espelho das águas refletindo veleiros, desejos, sonhos e todo aquele doce fazer nada all inclusive proporcionado por resorts estrelados.

Até que um dia o casal resolveu sair daquela ilha da fantasia e circular fora dali. Igual ao Buda Sidarta Gautama houve um choque de realidade: miséria por todos os lados, degradação, abandono, pessoas tristes, um cenário próximo do inferno. A República Dominicana, para resumir, é um lugar onde 80% das pessoas querem sair fora em busca de emprego e renda. E elas estão, em tese, a dois passos do “paraíso”.

Mexendo nesse imaginário, o escritor Mario Vargas Llosa (à esquerda) escreveu a obra-prima “O Paraíso na Outra Esquina”, onde traça trajetória do pintor francês Paul Gauguin e de sua avó, uma peruana cheia de ideais socialistas e que nos idos de 1850 confabulava pelas ruas de Paris com um tal de Karl Marx. O mote do livro de Llosa parte de uma brincadeira de crianças peruanas, olhos vendados, que tentam chegar ao paraíso.

A brincadeira culmina com a constatação de que o paraíso sempre está na outra esquina, nunca se chega lá. O aventureiro Gauguin (à direita), que trocou Paris pelos remotos mares do sul do Taiti – em busca do bom selvagem e de inspiração para suas telas – termina ali sua intensa vida com o sentimento do paraíso inalcançável.

Agora a dramaturgia novelesca da televisão brasileira belisca o tema: “O Outro Lado do Paraíso”, um lugar remoto do Tocantins, onde uma comunidade vive ao redor da exploração de esmeraldas e outras pedras preciosas. Em meio às tramas do seu cotidiano de amores, traições e crimes – sim, sangue e sexo são receitas infalíveis para audiência – constrói-se um enredo presumível.

O que chama mesmo a atenção é o artificialismo de algumas cenas, tipo as minas exploradas. Sufocantes e insalubres, ali só falta ter ar-condicionado. As prisões mostradas têm padrão suíço e o prostíbulo local, cheio de beldades, é de fazer inveja às casas noturnas de São Paulo e Tóquio. Ou seja, trata-se de um paraíso fake, qualquer que seja o lado ou direção a seguir.

Atualmente, no Espírito Santo, vai se formando um caldo de cultura a partir de comparações com a crítica situação econômica e social do Rio de Janeiro, para então concluir que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”, como diria Cândido, o personagem otimista de Voltaire. O objetivo embutido nesse tipo de associação é conformista, do manter tudo como está.

– “Olha, se mudar, a gente pode acabar do mesmo jeito que eles…”.

Por mim, preferia comparar com outro Rio de Janeiro, aquele da capital cultural, da sua gente bem humorada, do futebol mágico, das fervilhantes noites cariocas, dos morros enfeitados pelos sambas do Cartola, das pessoas convivendo com a diversidade e uma saudável dose de malandragem. Lá, houve um verão onde o paraíso andou perto, perpassou canções, filmes, subiu e desceu os morros, dobrou esquinas da boemia, emoldurou areias das praias.

Console-se: ficar a dois passos do paraíso funciona mais quando estamos perto de alguém muito desejado, diante da perspectiva de uma transa das galáxias, na iminência de ter algo muito querido, na plenitude dos nossos sentidos. Há aqueles que preferem os paraísos artificiais, vide Baudelaire, um dos motivos da intervenção militar feita na segurança pública do Rio. A propósito, circula nas redes sociais entrevista com Marcola, líder do narcotráfico. Ele lê Dante na prisão e diz que estamos todos condenados ao inferno, que a violência e o mal, ao contrário da crença ortodoxa, vencerão o bem.
Então, se depender dele o paraíso, neste plano, babau. Mas essa entrevista é só mais fake news das plataformas digitais, onde ficção e realidade se misturam o tempo todo.

Então, console-se mais ainda: sempre há uma esperança nesta terrena busca pelo paraíso. Mesmo que a sinalização seja infernal, como é o atual boom de farmácias pelas esquinas das nossas cidades. Das duas, uma: festival de farmácia parece lavagem de dinheiro ou estamos cada vez mais doentes e vendo o paraíso distante.

 

Luiz Trevisan

é jornalista, compositor,

poeta, escritor

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